Quem sou eu

Minha foto
cartógrafo de letras, sensações e pássaros

11 abril, 2013

Diagramas do cotidiano





  • Começar um texto é como procurar terreno. Procurar em toda sua extensão indícios ou pistas. A pretensão de escrever um texto grandioso é como a pretensão de encontrar ouro em um terreno baldio.
  • Não se trata de escavar, mas de varrer a superfície. Talvez como um arqueólogo. Talvez começar escovando as palavras com Manoel de Barros. Talvez brincando com os dedos sobre a poeira igual criança. Procurar feridas. Percorrer a pele em busca de hematomas. Sangue seco. 
  • Brincar na terra, experimentar o corpo sujo de lama. Entrar em contato com a própria pele. As raizes às vezes são rasteiras. Fazer-se orquídea. Entrar em minhoca. Coexistir nos fungos. Permear as formigas, os cupins. Desabotoar-se nas traças.
  • Depara-se com os cantos roídos de um livro. Qualquer página lhe vem à mente. O papel tingido dos tempos. Uma coisa leva à outra. O papel é qualquer coisa menos natural. Menos natural do que a palavra. Esse veneno da humanidade.


28 março, 2013

Redecorando



não
não tá tudo bem

eu deixo a casa vazia

você insiste em aparecer

as perguntas que faço

o silêncio teima responder



Nas delícias da lembrança



você beirando a soleira
e
equilibrando-se no parapeito do janelão
você é de uma fotografia antiga pendurada
ainda te seguro em pensamento
pra não cair