21 agosto, 2012
Antes de escrever um poema
..
meu avô homem simples
era de mexer nas coisas
mesmo as que ele nem sabia nome
mesmo assim pintava, abria, parafusava
passava cimento, trocava cano, martelava
e se desse vontade, perguntava o nome
quando não tinha, era o que era mesmo
mesmo que fosse um nome torto ou o quê
..
porque eu era curioso, mexia nas coisas do vô
e eu mesmo inventava de dar jeito nas coisas
pintando parafuso, martelando cano
passando cimento na tomada e por aí
e nem sei se ele achava graça ou batia
mas assim é que eu achava que tinha que fazer
..
agora eu passo horas trabalhando em um poema
e não consigo passar a página
pintei ele na minha parede pra decifrar
e pergunto a um e outro o que acham
ninguém acha nada, me dizem, nada, não sei e você
..
então eu pego como meu avô pra consertar o poema
as palavras e as letras pra fazer como acho que é
e vou fazendo, sem muita ferramenta
sem muita pretensão (não se pode espremer um poema com força)
..
depois vem aquele moleque curioso
que suja as palavras de tinta, derruba os pingos dos is
e deixa tudo do avesso, do jeito que ele ache que é
..
ainda bem
às vezes até esqueço
que a melhor parte da poesia é a brincadeira
26 julho, 2012
Canção para pombos
Haverá jantares
monossílabos descontrolados
manchas de batom
esperar na calçada
embrulhar pra presente
desabotoar camisas
presilhas coloridas
contas sobre a mesa
pedidos de desculpa
chocolates (os papéis)
olhos inchados
pernas cruzadas
tardes ensolaradas
mais chocolates
domingos mornos
geladeiras vazias
viagens à praia
mãos dadas
intoxicações alimentares
músicas bregas
retratos sobre a mesa
ombros caídos
garrafas pela metade
filas diagonais
sorrisos amarelos
travesseiros dobrados
e podem ser anos.
14 julho, 2012
09 maio, 2012
Crise de meia semana
Penso em fugir dos clichês. Penso que se já foi feito, deixa estar. Penso em tardes de não fazer nada, só ler, enrolar-se em lembranças, dar nós onde não há porquê, em dar nomes às saudades traiçoeiras. Penso que se um dia me encontrarem morto, deveria escrever um bilhete. Penso em escrever esse bilhete agora, enquanto dá tempo, como se a morte estivesse sempre correndo atrás de mim. Naquelas tardes de nada, a morte nem espiava, não é mesmo? E agora o que mudou? Por que a pressa, eu me pergunto. Porque é preciso, porque é tudo muito rápido, já se está lá. Penso em cartas antigas, penso em desabar, mas não desabo, não importa o comprimento da carta. Penso em um ano como um painel, vários recortes presos a ele, uns mais apagados, outros levados com a chuva, penso que a chuva é o clichê da melancolia. Penso nas enchentes, como seria bom varrer uns anos, mas não, são blindados. Penso em voltar atrás, mas nem quero. Penso que as janelas são momentos, e há no inglês essa tradução, penso nos clichês, quero exterminá-los. Penso em todos os Quintanas, Verissimos, Drummonds, Garcia Marques, Shakespeares, Lispectors e tudo aquilo que alguém achou que seria bom mandar para uma lista de e-mails com a promessa ou a ameaça de insucesso na vida e quero mata-los, um por um, um pequeno corte na jugular, tudo ao vivo, webcams, portais de notícia. Jovem salva a literatura da internet. Penso, só penso.
Penso nas metades de Ferreira Goulart e do Oswaldo Montenegro, penso em fragmentos de pessoas, fragmentos infinitos, pó das estrelas, pequenas partículas de sede que se misturam em caldeirões de festa. Penso que tenho umas quinze ou dezesseis metades desta, quero mais. Penso nos psicólogos que seria, penso naqueles que jamais serei, penso no que serei ou seria, e daí não tenho metades, tenho frações, dízimas. Penso em espelhos, penso no embaraço do dia a dia, penso na avenida e seus caminhões de som anunciando promoções. Penso no capitalismo, penso em me render, mas não quero.
Penso que alguém poderia me ajudar, mas nem sei no quê. Penso em me virar, penso em dar as costas, penso em me cansar, mas daí não posso. Penso que um dia como este deveria existir sempre, um dia produtivo, um dia sem regras, um dia onde uma coisa leva à outra, sem pressa, sem promessa. Penso que a lua me vigia, já pensei em outras coisas, mas penso sempre em silêncio e gosto. Penso que isto seria um desabafo, agora vejo que foi um retrato.
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