As paredes já não se encolhem
não tentam me esmagar por dentro ou por fora
também por todos os lados
Mas o perigo reside nos cantos, nas esquinas
nas sombras que se formam nos angulos perigosos
que não parecem dormir
Me observam entre os cantos
dos meus olhos inquietos
Não sei se foram os dias ou as preocupações
as ameaças ou os inimigos invisíveis que criei sem motivo e
que se distraíram sem que eu percebesse,
sem que pudessem me tocar em uma tentativa de alertar-me
ou que pudessem ler minhas confissões apagadas nos cantos
Agora as paredes já não se encolhem na procura de outros cantos
Pudessem ser aqueles cantos mais silenciosos e seu vazio a
me arrastar para si, aqueles cantos que temo preencher com
palavras sem sentido ou baratas perdidas em nossas invenções
Os cantos sem sonhos e sem sentido que me fitam sem porquê
Se escondem nos cantos dos muros, dos homens, dos matos
O alívio de se espremer tentando fazer o mundo rodar e
a convicção de que tudo está bem, não há preocupações maiores
do que o silêncio dos cantos do lençol e da janela
de me encher da lama do mundo e de chorar pelos cantos
de amanhecer pronto e sem medo de encarar o sol
de sorrir porque convém, e não ao outro olhar que busca abrigo
Pode ser que as paredes ainda venham tentar me esmagar
pode ser também que as cores que vejo tenham menos importância
Pode ser uma amiga que não presta atenção na sua ferida dilacerada
que se esconde nos cantos da blusa e se sente maltratada e só
Pode ser que a vida se esgote e ninguém sinta nada, ninguém veja nada
e que o que sobrar seja um imenso deserto descampado, onde nem o vento
se sinta a vontade consigo mesmo e o horizonte encolha
até que se enxergue a outra margem de tudo e
se descubra o mesmo horizonte como se tudo fosse o reflexo de um espelho e
do outro lado não havia mais nada a fazer a não ser debruçar-se
sobre um canto cinzento
