Quem sou eu

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cartógrafo de letras, sensações e pássaros

14 dezembro, 2012

Despedida





garoava
era a vida passando
devagarinho

a gente nem viu


a saudade
que deixa
faz tempestade




22 novembro, 2012

02 novembro, 2012

As pessoas





as pessoas passam
involuntariamente passam
tocam-se, olham-se, desejam-se
tudo sem querer
as pessoas passam

umas passam vidas inteiras
e ao final ainda perguntam-se (torturando-se)
-que fiz de minha vida?
ou melhor
que fez da sua?-
e voltam a passar
entre idas e vindas
repelindo-se, amando-se, odiando-se
com ou sem querer

e quando alguém lhes pergunta
-para que isto?-
as pessoas dizem
-ora, não tenho tempo para perguntas-
e as pessoas passam
voltam a pensar em si mesmas
cheias de orgulho
porque as pessoas também pensam

talvez pensem em ir embora
(umas até vão)
com sorte umas ou outras ainda ficam
e cansadas desta lentidão infernal
talvez passem para dizer algo
as pessoas passam

14 outubro, 2012

Psicografando


Na minha casa
Os poetas batem à porta cedo
E dizem coisas como

Minhas mortes foram
para meus amigos
as coisas mais femininas
de outro tempo

E depois vão embora
como se tivessem ganho o dia

05 outubro, 2012

Sobre as mortes




...nem "morte morrida, nem matada", morte sem nome, de deixar-se morrer, morrer em praça pública, de dia e de noite no olhar do outro, um solitário anônimo, em frente às câmeras, amado por vários, odiado por todos os outros, com ordem de prisão. Não se pode intervir nessa vida, pois dentro não há mais vida, não é possível prendê-lo sem dar-lhe um nome, um número, uma família, nem se pode conhecê-lo, pois já está morto. O que faz um corpo depois de esvaziado, plantado? Não como um vegetal, porque não se agarra ao chão, nem se liga à vida, simplesmente fica, e por acaso se bater-lhe um vento mais forte, é levado, fica leve encostado no ar. Há uma essência de espetáculo neste seu ato, algo que não pode ser interrompido, não pode também ser compreendido, e qualquer que seja seu nome, sua história, o que inventarem, não importa, não se pode capturá-lo, não se pode segui-lo. Quando morrer, viverá em eternidade, e uma brisa leve pode pairar de tarde, fazer chover à noite. A vida continua se reinventando.

21 agosto, 2012

Antes de escrever um poema




..
meu avô homem simples
era de mexer nas coisas
mesmo as que ele nem sabia nome
mesmo assim pintava, abria, parafusava
passava cimento, trocava cano, martelava
e se desse vontade, perguntava o nome
quando não tinha, era o que era mesmo
mesmo que fosse um nome torto ou o quê

..
porque eu era curioso, mexia nas coisas do vô
e eu mesmo inventava de dar jeito nas coisas
pintando parafuso, martelando cano
passando cimento na tomada e por aí
e nem sei se ele achava graça ou batia
mas assim é que eu achava que tinha que fazer

..
agora eu passo horas trabalhando em um poema
e não consigo passar a página
pintei ele na minha parede pra decifrar
e pergunto a um e outro o que acham
ninguém acha nada, me dizem, nada, não sei e você

..
então eu pego como meu avô pra consertar o poema
as palavras e as letras pra fazer como acho que é
e vou fazendo, sem muita ferramenta
sem muita pretensão (não se pode espremer um poema com força)

..
depois vem aquele moleque curioso
que suja as palavras de tinta, derruba os pingos dos is
e deixa tudo do avesso, do jeito que ele ache que é

..
ainda bem
às vezes até esqueço
que a melhor parte da poesia é a brincadeira

26 julho, 2012

Canção para pombos


Haverá jantares
monossílabos descontrolados
manchas de batom
esperar na calçada
embrulhar pra presente
desabotoar camisas
presilhas coloridas
contas sobre a mesa
pedidos de desculpa
chocolates (os papéis)
olhos inchados
pernas cruzadas
tardes ensolaradas
mais chocolates
domingos mornos
geladeiras vazias
viagens à praia
mãos dadas
intoxicações alimentares
músicas bregas
retratos sobre a mesa
ombros caídos
garrafas pela metade
filas diagonais
sorrisos amarelos
travesseiros dobrados

e podem ser anos.

09 maio, 2012

Crise de meia semana

Penso em fugir dos clichês. Penso que se já foi feito, deixa estar. Penso em tardes de não fazer nada, só ler, enrolar-se em lembranças, dar nós onde não há porquê, em dar nomes às saudades traiçoeiras. Penso que se um dia me encontrarem morto, deveria escrever um bilhete. Penso em escrever esse bilhete agora, enquanto dá tempo, como se a morte estivesse sempre correndo atrás de mim. Naquelas tardes de nada, a morte nem espiava, não é mesmo? E agora o que mudou? Por que a pressa, eu me pergunto. Porque é preciso, porque é tudo muito rápido, já se está lá. Penso em cartas antigas, penso em desabar, mas não desabo, não importa o comprimento da carta. Penso em um ano como um painel, vários recortes presos a ele, uns mais apagados, outros levados com a chuva, penso que a chuva é o clichê da melancolia. Penso nas enchentes, como seria bom varrer uns anos, mas não, são blindados. Penso em voltar atrás, mas nem quero. Penso que as janelas são momentos, e há no inglês essa tradução, penso nos clichês, quero exterminá-los. Penso em todos os Quintanas, Verissimos, Drummonds, Garcia Marques, Shakespeares, Lispectors e tudo aquilo que alguém achou que seria bom mandar para uma lista de e-mails com a promessa ou a ameaça de insucesso na vida e quero mata-los, um por um, um pequeno corte na jugular, tudo ao vivo, webcams, portais de notícia. Jovem salva a literatura da internet. Penso, só penso. 
Penso nas metades de Ferreira Goulart e do Oswaldo Montenegro, penso em fragmentos de pessoas, fragmentos infinitos, pó das estrelas, pequenas partículas de sede que se misturam em caldeirões de festa. Penso que tenho umas quinze ou dezesseis metades desta, quero mais. Penso nos psicólogos que seria, penso naqueles que jamais serei, penso no que serei ou seria, e daí não tenho metades, tenho frações, dízimas. Penso em espelhos, penso no embaraço do dia a dia, penso na avenida e seus caminhões de som anunciando promoções. Penso no capitalismo, penso em me render, mas não quero.
Penso que alguém poderia me ajudar, mas nem sei no quê. Penso em me virar, penso em dar as costas, penso em me cansar, mas daí não posso. Penso que um dia como este deveria existir sempre, um dia produtivo, um dia sem regras, um dia onde uma coisa leva à outra, sem pressa, sem promessa. Penso que a lua me vigia, já pensei em outras coisas, mas penso sempre em silêncio e gosto. Penso que isto seria um desabafo, agora vejo que foi um retrato. 


08 abril, 2012

Meses sem escrever

É, já faz um tempo que eu procuro um tempo só pra mim. Uns dias afundado nas ideias, nas sensações do próprio corpo e do próprio mundo. Mas o mundo real não dá conta do desiquilíbrio. 

Estranho ficar preso na felicidade dos outros

30 janeiro, 2012

Segunda feira : parte 2

No primeiro dia, alguém disse, Haja luz.
E forçaram-me a visão para dentro.
Lançando-me assim, à impossível tarefa de arrepender-me de pensar
Digo assim pois, dos sonhos, não há o impossível, para não dizer do arrependimento
Que fosse apenas o olhar, à luz fria do acontecimento,
do calor do momento ou da impassível chuva da semana

Uma multidão aglomerou-se. Fez protestos, gritaria, para não dizer da baixaria.
Disseram em um terrível uníssono, Morra-se em sete dias.
Assim coroaram-me, Segunda-feira.
Dia dos primeiros arrependimentos
das primeiras dores
dos primeiros arruaceiros
das primeiras damas
dos primeiros acordes
das primeiras últimas vezes
E não adiantou inverterem
Pois a última dor é impossível
a última é infeliz
os últimos estão descontentes
os últimos são imprevisíveis
as últimas estão exaustas
E sete dias depois
como se fossem sete números extraordinários
Morre-se de novo
Cansado da injustiça
Impregnado na demora
Invocando esta hora traiçoeira
Deixa estar, Segunda feira