Penso em fugir dos clichês. Penso que se já foi feito, deixa estar. Penso em tardes de não fazer nada, só ler, enrolar-se em lembranças, dar nós onde não há porquê, em dar nomes às saudades traiçoeiras. Penso que se um dia me encontrarem morto, deveria escrever um bilhete. Penso em escrever esse bilhete agora, enquanto dá tempo, como se a morte estivesse sempre correndo atrás de mim. Naquelas tardes de nada, a morte nem espiava, não é mesmo? E agora o que mudou? Por que a pressa, eu me pergunto. Porque é preciso, porque é tudo muito rápido, já se está lá. Penso em cartas antigas, penso em desabar, mas não desabo, não importa o comprimento da carta. Penso em um ano como um painel, vários recortes presos a ele, uns mais apagados, outros levados com a chuva, penso que a chuva é o clichê da melancolia. Penso nas enchentes, como seria bom varrer uns anos, mas não, são blindados. Penso em voltar atrás, mas nem quero. Penso que as janelas são momentos, e há no inglês essa tradução, penso nos clichês, quero exterminá-los. Penso em todos os Quintanas, Verissimos, Drummonds, Garcia Marques, Shakespeares, Lispectors e tudo aquilo que alguém achou que seria bom mandar para uma lista de e-mails com a promessa ou a ameaça de insucesso na vida e quero mata-los, um por um, um pequeno corte na jugular, tudo ao vivo, webcams, portais de notícia. Jovem salva a literatura da internet. Penso, só penso.
Penso nas metades de Ferreira Goulart e do Oswaldo Montenegro, penso em fragmentos de pessoas, fragmentos infinitos, pó das estrelas, pequenas partículas de sede que se misturam em caldeirões de festa. Penso que tenho umas quinze ou dezesseis metades desta, quero mais. Penso nos psicólogos que seria, penso naqueles que jamais serei, penso no que serei ou seria, e daí não tenho metades, tenho frações, dízimas. Penso em espelhos, penso no embaraço do dia a dia, penso na avenida e seus caminhões de som anunciando promoções. Penso no capitalismo, penso em me render, mas não quero.
Penso que alguém poderia me ajudar, mas nem sei no quê. Penso em me virar, penso em dar as costas, penso em me cansar, mas daí não posso. Penso que um dia como este deveria existir sempre, um dia produtivo, um dia sem regras, um dia onde uma coisa leva à outra, sem pressa, sem promessa. Penso que a lua me vigia, já pensei em outras coisas, mas penso sempre em silêncio e gosto. Penso que isto seria um desabafo, agora vejo que foi um retrato.
