- Começar um texto é como procurar terreno. Procurar em toda sua extensão indícios ou pistas. A pretensão de escrever um texto grandioso é como a pretensão de encontrar ouro em um terreno baldio.
- Não se trata de escavar, mas de varrer a superfície. Talvez como um arqueólogo. Talvez começar escovando as palavras com Manoel de Barros. Talvez brincando com os dedos sobre a poeira igual criança. Procurar feridas. Percorrer a pele em busca de hematomas. Sangue seco.
- Brincar na terra, experimentar o corpo sujo de lama. Entrar em contato com a própria pele. As raizes às vezes são rasteiras. Fazer-se orquídea. Entrar em minhoca. Coexistir nos fungos. Permear as formigas, os cupins. Desabotoar-se nas traças.
- Depara-se com os cantos roídos de um livro. Qualquer página lhe vem à mente. O papel tingido dos tempos. Uma coisa leva à outra. O papel é qualquer coisa menos natural. Menos natural do que a palavra. Esse veneno da humanidade.
