Aproximações entre os Detetives Selvagens e o Vazio Tropical.
Duas obsessões me atormentam esta semana:
A primeira é o término iminente do (gigante) Detetives Selvagens de Roberto Bolaño, publicado pela Cia das Letras, tradução de Eduardo Brandão. Restam umas trinta páginas desta viagem calorosa pela literatura latino americana ao lado dos personagens Arturo Belano e Ulises Lima e todos os seus arredores de poetas (pra lá de uns quarenta que vêm e vão pela obra para nos contar sobre estes dois ou sobre si mesmos).
Outra é a repetição incessante do disco Vazio Tropical do cantor e compositor Wado. Um álbum que impressiona com sua simplicidade lírica e expõe a melancolia sutil do compositor. O disco foi produzido pelo também cantor e compositor Marcelo Camelo e é tecido ao lado de outros expoentes da chamada jovem MPB, são eles, Cicero, Momo, Marcelo Camelo e outros.
O fato é que estes dois acontecimentos - utilizo aqui a definição do Dicionário Houaiss que define acontecimento tal como "o que acontece ou se realiza de modo inesperado; acaso, eventualidade ou ainda pessoa ou fato digno de nota, que produz viva sensação ou constitui grande êxito; sucesso" - me perseguem, a todo instante, me invadem quando estou concentrado em outra coisa, durante o trabalho, etc. Então deixem me tecer algumas considerações sobre eles.
Sobre o primeiro há muito o que dizer, talvez assunto que nunca se acabe. Talvez desse umas vinte páginas só de coisas que consigo conceber de supetão, dados o contexto da narrativa e o histórico do autor, as relações descritas no livro e as centenas de referências que Roberto Bolaño sempre apresenta consigo.
Neste breve texto, me reportarei apenas a uma situação específica do livro. Para quem não leu, não se trata de uma história linear por excelência, mas de fragmentos colhidos por diversos personagens sobre estes dois nomes: Arturo Belano e Ulises Lima, brevemente apresentados no inicio do livro sob a narrativa no diario do jovem poeta García Madero. Neste pequeno excerto, procurarei me deter em traçar algumas ideias acerca de um personagem chamado Joaquim Fónt, também conhecido como Quim Fónt.
Quím Fónt é pai de duas meninas que aparecem logo no começo do livro, Maria e Angelica. É um arquiteto com certo renome na Cidade do México e participa a pedido dos poetas Arturo e Ulises da revista de poesia real-visceralista, do movimento real-visceralista (movimento literário fictício na obra de Bolaño que encontra inspiração no movimento infrarrealista do qual Roberto Bolaño fez parte). Quím é um workaholic e é sempre lembrado como louco ou a ponto de enlouquecer por vários personagens do livro. No começo do livro, relatam ao poeta Garcia Madero que Joaquim Font está a ponto de enlouquecer de pensar na possibilidade de sua filha mais nova Angelica Font perder a virgindade, mas logo o poeta faz amizade com Joaquim e descobre nele um aliado e um amigo que o auxilia em diversas ocasiões.
Quim Fónt é responsável pela diagramação da revista real-visceralista, trabalho o qual o esgota profundamente e lhe tira o sono, dada sua possível repercussão no circuito literário mexicano. Quim anseia um projeto vanguardista que irá deixar os mexicanos de queixo no chão, tamanha sua inovação, tamanho é seu talento vanguardista, que faz jus ao movimento também vanguardista de poesia.
Mais adiante na história, vemos Quím Fónt internado em uma instituição manicomial, na qual ele se encontra sob efeito de drogas, sem lembrar de algumas pessoas. Outros personagens associam seu surto à perda de um automóvel que empresta aos poetas Arturo, Ulises e Garcia Madero mais uma amiga de sua filha para fugirem para Sonora. O automóvel em questão, um Impala, sonho de consumo de Quim é descrito como um carro que ele pouco usava, mas muito estimava e reparece em algumas alucinações de Quim mais à frente.
Durante o tempo que passa, Quim Font tem devaneios, alguns decorrentes do surto, outros associados à forte medicação. Porém, sua relação com os outros internos é interessante de se discutir, bem como sua relação com o psiquiatra, do qual rapidamente fez amizade. Quim está consciente de sua condição, mas nunca manifesta vontade de sair da instituição, considera a experiência como um tempo. E passa muitos anos variando entre instituições. Passam-se anos até que ele se recupere totalmente, e de lá de dentro Quim expõe seus pensamentos com muita clareza, com muita originalidade, uma visão que não é nem do doente mental, nem do seu familiar ou dos funcionários. Quase como se fosse alheio à lógica asilar, Quim é capaz de pensar a arquitetura, as relações entre a instituição e o fora dela, assim como o dentro da instituição e o fora. Quim parece desligado de qualquer filiação com sua família e com a instituição. Às vezes as filhas vêm visitá-lo, às vezes lembra-se delas, outras um amigo antigo o visita em sonhos e então seus devaneios tomam rumos filosóficos e ficamos diante de um espectador da própria vida.
Quando Quim sai, e já se passaram 11 anos, está sem emprego, divorciado, suas filhas já tem suas próprias vidas, depara-se com um Mexico quase nos anos 90, e às vezes parece distante de si mesmo, quando relata que não sente mais dor. Quim procura seus colegas em busca de emprego e evita admitir que esteve internado estes anos todos. Conta histórias de viagens a seus colegas, que esteve por todos os cantos do mundo, descreve suas viagens e acontecimentos que teria vivenciado, sem deixar de confirmar que sim, esteve internado, mas por pouco tempo, os outros anos passou viajando. Quim vai aos poucos recompondo sua antiga vida, arrumando empregos de desenhista para outros arquitetos, mas sempre revisitado por seus devaneios fragmentados. Em sua última conversa com o livro, Quim relata ver seu Impala, gasto já pelos anos, aquele Impala 74 que tinha sido emprestado aos poetas e começa a fazer associações sobre sua vida, sobre a vida no méxico, sobre os escritores e poetas, sobre os acontecimentos de sua vida e sua percepção das coisas. Quim, diante de todos estes fragmentos nos deixa com o seguinte pensamento:
"Quando já tinha percorrido metade do caminho, tive uma ideia e me virei, mas o Impala não estava mais na rua, visto e não visto, agora está, agora não está mais, a rua tinha se transformado num quebra-cabeça de penumbra e que faltavam várias peças, e uma das peças que faltavam, curiosamente era eu mesmo. Meu Impala tinha ido embora. Eu, de maneira que não conseguia compreender, também tinha ido. Meu Impala havia voltado à minha mente. eu havia voltado à minha mente. Soube então, com humildade, com perplexidade, num arroubo de mexicanidade absoluto, que éramos governados pelo acaso, e que nessa tormenta todos nós nos nos afogaríamos, e soube que só os mais astutos, com certeza eu não estava entre eles, iriam se manter à superfície por um pouco mais de tempo."
Sobre isto, que não sei bem como desenvolver, acho que é possível pensar algumas coisas, mas talvez esta seja a minha percepção do livro e da história, de como um livro pode tomar-nos, sem que percebamos e já somos outros. De como uma história, em certa medida distante, mas ali no Mexico pode nos atravessar ao ponto de reconhecer em Quim tantos outros eus, tantos Josés, Marianos, tantos outros Joaquins também. Como a busca incessante por algo extraordinariamente novo e vanguardista pode ser uma busca vazia, que nos coloca no limite físico e psicológico da loucura. Em ultima análise, para onde vai a loucura, qual é seu território?
E claro, puxando para minha área de conhecimento que é a Psicologia, mais especificamente nos estudos sobre a loucura e também (como não dizer) da psiquiatria que produz as verdades sobre a loucura. Mas isto é tema para outra conversa, um estudo bem maior. Aqui quero deixar registrado, de forma as vezes meio desconexa e confusa a história de Joaquim Font, dentro desta grandiosa obra Detetives Selvagens.
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Sobre o segundo, depois de escrever tantas coisas sobre o livro, me proponho a dizer que ambas as escritas de Wado como a de Bolaño são sofisticadas no sentido de que não estão para brincadeiras com a escrita, falam sem nenhuma prolixidade, são muito cuidadosos com as palavras que escolhem, texto simples que abre espaço para profundas interpretações. Não quero aqui, finalizar a discussão, tanto entre os dois, quanto de cada um, esta é apenas uma das possíveis leituras. Com sorte, em ambas as obras e os respectivos autores cabem infinitas leituras e aproximações, o que denota seu valor estético, bem como seus desdobramentos de ordem teórica. Registro aqui algumas ideias que tive e que estou tendo enquanto escrevo, pois o exercício é sempre produtivo e produtor.
Bolaño discorre sobre a poesia, sobre a vida dos poetas no México dos anos 70 e 80, sobre as relações de amizade e de trabalho fora do país. Wado, distanciado no tempo, aproxima-se do chileno no lirismo. Fala de infâncias, de imagens poéticas, de inventar-se na cidade. Seu Vazio é próximo do vazio dos poetas real visceralistas do livro. Não se trata aqui de um vazio individual ou de uma sensibilidade que se inventa no interior privado. Ambos parecem anunciar um grito por sensibilidade, mas um sensível que se coloca aberto para o diálogo com o outro.
Apesar da figura melancólica que o vazio remete, essa melancolia se traduz em um estado de suspensão e apresentam originalidade, ambos tem um ritmo muito próprio, uma cadência que apodera-se de seu leitor ou de quem ouve o músico. Neste ponto, o leitor alinha-se à experiencia do ouvinte, dado que o tom que Bolaño usa em seus livros, apesar de não ter nada de música, não produz uma ansiedade pelo fim da história, mas algo muito próximo à música, de se apreciar o arranjo construído. Como se o desenrolar da história fosse interrompido por um holofote que se coloca ora na a forma literária, no manejo dos personagens, na construção dos cenários, no desenvolvimento dos personagens, ora nas descrições e associações do escritor, nas figuras de linguagem. O final apresenta-se como num concerto musical, muito mais como a consolidação da história do que o desvelamento de um segredo, um ponto de chegada. Como assinatura, Bolaño sempre dá um tom abrupto aos finais, quase como se lhe arrancassem a caneta no susto. Wado também encontra intersecções neste ponto. O Vazio Tropical termina e deixa a sensação de que algo foi perdido durante sua execução. Talvez até o próprio final deixe esta sensação, de um disco que é permeado pelos silêncios, tanto que quando acaba, parece continuar tocando e reverberando pelo corpo todo. Os poetas de Bolaño compartilham dessa característica: apesar de invisíveis, permanecem percorrendo o sangue, produzindo barulhos por dentro.
