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cartógrafo de letras, sensações e pássaros

02 novembro, 2012

As pessoas





as pessoas passam
involuntariamente passam
tocam-se, olham-se, desejam-se
tudo sem querer
as pessoas passam

umas passam vidas inteiras
e ao final ainda perguntam-se (torturando-se)
-que fiz de minha vida?
ou melhor
que fez da sua?-
e voltam a passar
entre idas e vindas
repelindo-se, amando-se, odiando-se
com ou sem querer

e quando alguém lhes pergunta
-para que isto?-
as pessoas dizem
-ora, não tenho tempo para perguntas-
e as pessoas passam
voltam a pensar em si mesmas
cheias de orgulho
porque as pessoas também pensam

talvez pensem em ir embora
(umas até vão)
com sorte umas ou outras ainda ficam
e cansadas desta lentidão infernal
talvez passem para dizer algo
as pessoas passam

14 outubro, 2012

Psicografando


Na minha casa
Os poetas batem à porta cedo
E dizem coisas como

Minhas mortes foram
para meus amigos
as coisas mais femininas
de outro tempo

E depois vão embora
como se tivessem ganho o dia

05 outubro, 2012

Sobre as mortes




...nem "morte morrida, nem matada", morte sem nome, de deixar-se morrer, morrer em praça pública, de dia e de noite no olhar do outro, um solitário anônimo, em frente às câmeras, amado por vários, odiado por todos os outros, com ordem de prisão. Não se pode intervir nessa vida, pois dentro não há mais vida, não é possível prendê-lo sem dar-lhe um nome, um número, uma família, nem se pode conhecê-lo, pois já está morto. O que faz um corpo depois de esvaziado, plantado? Não como um vegetal, porque não se agarra ao chão, nem se liga à vida, simplesmente fica, e por acaso se bater-lhe um vento mais forte, é levado, fica leve encostado no ar. Há uma essência de espetáculo neste seu ato, algo que não pode ser interrompido, não pode também ser compreendido, e qualquer que seja seu nome, sua história, o que inventarem, não importa, não se pode capturá-lo, não se pode segui-lo. Quando morrer, viverá em eternidade, e uma brisa leve pode pairar de tarde, fazer chover à noite. A vida continua se reinventando.

21 agosto, 2012

Antes de escrever um poema




..
meu avô homem simples
era de mexer nas coisas
mesmo as que ele nem sabia nome
mesmo assim pintava, abria, parafusava
passava cimento, trocava cano, martelava
e se desse vontade, perguntava o nome
quando não tinha, era o que era mesmo
mesmo que fosse um nome torto ou o quê

..
porque eu era curioso, mexia nas coisas do vô
e eu mesmo inventava de dar jeito nas coisas
pintando parafuso, martelando cano
passando cimento na tomada e por aí
e nem sei se ele achava graça ou batia
mas assim é que eu achava que tinha que fazer

..
agora eu passo horas trabalhando em um poema
e não consigo passar a página
pintei ele na minha parede pra decifrar
e pergunto a um e outro o que acham
ninguém acha nada, me dizem, nada, não sei e você

..
então eu pego como meu avô pra consertar o poema
as palavras e as letras pra fazer como acho que é
e vou fazendo, sem muita ferramenta
sem muita pretensão (não se pode espremer um poema com força)

..
depois vem aquele moleque curioso
que suja as palavras de tinta, derruba os pingos dos is
e deixa tudo do avesso, do jeito que ele ache que é

..
ainda bem
às vezes até esqueço
que a melhor parte da poesia é a brincadeira