As paredes já não se encolhem
não tentam me esmagar por dentro ou por fora
também por todos os lados
Mas o perigo reside nos cantos, nas esquinas
nas sombras que se formam nos angulos perigosos
que não parecem dormir
Me observam entre os cantos
dos meus olhos inquietos
Não sei se foram os dias ou as preocupações
as ameaças ou os inimigos invisíveis que criei sem motivo e
que se distraíram sem que eu percebesse,
sem que pudessem me tocar em uma tentativa de alertar-me
ou que pudessem ler minhas confissões apagadas nos cantos
Agora as paredes já não se encolhem na procura de outros cantos
Pudessem ser aqueles cantos mais silenciosos e seu vazio a
me arrastar para si, aqueles cantos que temo preencher com
palavras sem sentido ou baratas perdidas em nossas invenções
Os cantos sem sonhos e sem sentido que me fitam sem porquê
Se escondem nos cantos dos muros, dos homens, dos matos
O alívio de se espremer tentando fazer o mundo rodar e
a convicção de que tudo está bem, não há preocupações maiores
do que o silêncio dos cantos do lençol e da janela
de me encher da lama do mundo e de chorar pelos cantos
de amanhecer pronto e sem medo de encarar o sol
de sorrir porque convém, e não ao outro olhar que busca abrigo
Pode ser que as paredes ainda venham tentar me esmagar
pode ser também que as cores que vejo tenham menos importância
Pode ser uma amiga que não presta atenção na sua ferida dilacerada
que se esconde nos cantos da blusa e se sente maltratada e só
Pode ser que a vida se esgote e ninguém sinta nada, ninguém veja nada
e que o que sobrar seja um imenso deserto descampado, onde nem o vento
se sinta a vontade consigo mesmo e o horizonte encolha
até que se enxergue a outra margem de tudo e
se descubra o mesmo horizonte como se tudo fosse o reflexo de um espelho e
do outro lado não havia mais nada a fazer a não ser debruçar-se
sobre um canto cinzento
16 março, 2010
19 dezembro, 2009
Eu te amo
logo depois de embarcar no ônibus às 23:00 do dia 18 de dezembro, me veio esse texto inteiro à cabeça e mesmo com o escuro e o chacoalhar do ônibus, fui até o fim do que parecia ser uma carta de despedida.
Trinta minutos que estavam mais para duas horas. A setenta quilometros por hora no taxi, meu coração batia umas mil vezes. O que eu esqueci? Quanto tempo ainda tem? Quanto nós ainda temos? Calma, calma. Era inútil. tão inútil quanto contar os minutos... Tudo poderia acabar em questão de segundos, mas os minutos me cortavam mais de setenta vezes por segundo.
A cidade inteira parecia acompanhar nossa dor. Lugares vazios, luzes apagadas. O vento de ponta à ponta da praça sem ninguém para desafiá-lo. Estávamos a sós. Praticamente oito meses sem saber o que era essa dor de despedida, de medo da solidão e sofrer por antecipação uma divisão no peito que já era calculada, mas não levava em contao meu amor ao infinito. Branco e preto, doloroso e inevitável, meu coração parecia pressentir um desconforto que só depois teria nome.
Chegamos cedo, com folga para doer uma despedida que já começara bem antes, lá pelas nove da manhã. Devo confessar que foi um dia digno de ficar marcado, mesmo. Café, docinhos de goiaba e pão-de-mel, intercalados com beijos intermináveis que pretendiam guardar essa doçura da manhã para momentos cinzas e amargos. Inútil, porém a graça era a de imortalizar aqueles lábios de café e saudade porvir. Muito amor depois e alguns carinhos, apertando aqueles braços que sempre seriam meus, não importava onde fossem ou quem tocassem. Meus.
Por que o ônibus está tão vazio? Não previam paradas depois... Um barulho infernal vem me atormentar a cada dez minutos. Já estou há meia hora neste breve relato que vibra ao som das rodas ao meu lado. Nunca pensei em morte ou tragédia durante essas viagens, mas esta, não sei. Talvez por isso esta vontade de escrever apesar do movimento do ônibus tornar isso [quase] impossível.
Há alguns minutos da rodoviária tive vontade de acender um cigarro. Estaria traindo a mim mesmo, mas nunca trairia a ela, lembro.
Fui enganado. O ônibus está prestes a fazer uma parada. Já não sei mais até quando esse relato será viável. Não gosto de escrever com alguém ao meu lado. É tão, tão...meu. Sinto-me invadido, violado até.
Ela estava de óculos - e os detesta. Particularmente não me importo, chego até a gostar às vezes. Tem um certo charme, um ar intelectual ou que talvez desperte alguma fantasia inconsciente, não sei. Pensei em tirar uma fotografia nossa. Embora viva com uma imagem que nunca me sai da cabeça, gosto de guardar de forma real e concreta algum pedacinho dela e meu. Para quando levar a fotografia novamente à vista, traga junto os beijos e o abraço que sempre seriam e serão meus. Falar no futuro do pretérito dá uma falsa idéia de descontinuidade das coisas e me coloca certo medo. Não gosto.
Imortalizei então, nosso último momento sentado no banco de madeira junto das malas, mochilas, cavaquinho, sacola. Estas coisas que levamos de um lado para o outro conosco para ter um gosto de nós mesmos, onde quer que estejamos. Eu te amo, disse guardando a foto e nosso momento dentro de mim.
Levantei-me para comprar uma bala e dividir o troco do taxi. Essa mania de ser certa, embora eu sempre esteja em dívida com ela, digo, estava antes do risoto com vinho do jantar de ontem e do almoço de hoje (dois risotos diferentes). Estou com o risoto ao meu lado, mas de longe sei que ele não traz os bons momentos de hoje, junto do sabor.
Hoje foi um dia como outro qualquer, mas só pela saudade, tem um gosto inigualável de moldura e memória doce. Nossa despedida foi há tão pouco tempo e já me dói. Como dói. Eu te amo. Sempre.
Do futuro, nós nunca sabemos muito. Nossa despedida através do vidro... Lembrei agora que troquei de ônibus para pegar um lugar à janela e o ônibus demora uma hora a mais... Onde estava? Sim, nossa despedida pelo vidro. Sua blusa roxa, nossas palmas juntas sem se tocarem. Isso dói. O último toque dura para sempre, sinto isso e sinto-me vivo também. Mais do que nunca, essa ausência me faz crescer e apreciar a vida. Afinal, foi um ótimo ano, as férias sempre deixam essas lacunas para se viver a vida. Eu te amo. Sempre te amarei.
Trinta minutos que estavam mais para duas horas. A setenta quilometros por hora no taxi, meu coração batia umas mil vezes. O que eu esqueci? Quanto tempo ainda tem? Quanto nós ainda temos? Calma, calma. Era inútil. tão inútil quanto contar os minutos... Tudo poderia acabar em questão de segundos, mas os minutos me cortavam mais de setenta vezes por segundo.
A cidade inteira parecia acompanhar nossa dor. Lugares vazios, luzes apagadas. O vento de ponta à ponta da praça sem ninguém para desafiá-lo. Estávamos a sós. Praticamente oito meses sem saber o que era essa dor de despedida, de medo da solidão e sofrer por antecipação uma divisão no peito que já era calculada, mas não levava em contao meu amor ao infinito. Branco e preto, doloroso e inevitável, meu coração parecia pressentir um desconforto que só depois teria nome.
Chegamos cedo, com folga para doer uma despedida que já começara bem antes, lá pelas nove da manhã. Devo confessar que foi um dia digno de ficar marcado, mesmo. Café, docinhos de goiaba e pão-de-mel, intercalados com beijos intermináveis que pretendiam guardar essa doçura da manhã para momentos cinzas e amargos. Inútil, porém a graça era a de imortalizar aqueles lábios de café e saudade porvir. Muito amor depois e alguns carinhos, apertando aqueles braços que sempre seriam meus, não importava onde fossem ou quem tocassem. Meus.
Por que o ônibus está tão vazio? Não previam paradas depois... Um barulho infernal vem me atormentar a cada dez minutos. Já estou há meia hora neste breve relato que vibra ao som das rodas ao meu lado. Nunca pensei em morte ou tragédia durante essas viagens, mas esta, não sei. Talvez por isso esta vontade de escrever apesar do movimento do ônibus tornar isso [quase] impossível.
Há alguns minutos da rodoviária tive vontade de acender um cigarro. Estaria traindo a mim mesmo, mas nunca trairia a ela, lembro.
Fui enganado. O ônibus está prestes a fazer uma parada. Já não sei mais até quando esse relato será viável. Não gosto de escrever com alguém ao meu lado. É tão, tão...meu. Sinto-me invadido, violado até.
Ela estava de óculos - e os detesta. Particularmente não me importo, chego até a gostar às vezes. Tem um certo charme, um ar intelectual ou que talvez desperte alguma fantasia inconsciente, não sei. Pensei em tirar uma fotografia nossa. Embora viva com uma imagem que nunca me sai da cabeça, gosto de guardar de forma real e concreta algum pedacinho dela e meu. Para quando levar a fotografia novamente à vista, traga junto os beijos e o abraço que sempre seriam e serão meus. Falar no futuro do pretérito dá uma falsa idéia de descontinuidade das coisas e me coloca certo medo. Não gosto.
Imortalizei então, nosso último momento sentado no banco de madeira junto das malas, mochilas, cavaquinho, sacola. Estas coisas que levamos de um lado para o outro conosco para ter um gosto de nós mesmos, onde quer que estejamos. Eu te amo, disse guardando a foto e nosso momento dentro de mim.
Levantei-me para comprar uma bala e dividir o troco do taxi. Essa mania de ser certa, embora eu sempre esteja em dívida com ela, digo, estava antes do risoto com vinho do jantar de ontem e do almoço de hoje (dois risotos diferentes). Estou com o risoto ao meu lado, mas de longe sei que ele não traz os bons momentos de hoje, junto do sabor.
Hoje foi um dia como outro qualquer, mas só pela saudade, tem um gosto inigualável de moldura e memória doce. Nossa despedida foi há tão pouco tempo e já me dói. Como dói. Eu te amo. Sempre.
Do futuro, nós nunca sabemos muito. Nossa despedida através do vidro... Lembrei agora que troquei de ônibus para pegar um lugar à janela e o ônibus demora uma hora a mais... Onde estava? Sim, nossa despedida pelo vidro. Sua blusa roxa, nossas palmas juntas sem se tocarem. Isso dói. O último toque dura para sempre, sinto isso e sinto-me vivo também. Mais do que nunca, essa ausência me faz crescer e apreciar a vida. Afinal, foi um ótimo ano, as férias sempre deixam essas lacunas para se viver a vida. Eu te amo. Sempre te amarei.
14 novembro, 2009
Ninguém é de ferro
Ver seu sorriso novo, desconfigurado é que me deixa com raiva. Sinto nos olhos dele a ameaça sutil de quando toca a minha pele sem querer, sem nem me ver. Passei, você não viu - ou fingiu que não. A minha mão é muito mais forte e quente do que a dele, encaixa perfeitamente nas suas costas nuas meio listradas.
Removi da imagem tudo o que pudesse me lembrar a sua figura, mas de nada adiantou, é minha inspiração e se move com tanta frequencia que é praticamente impossível tirar até o ultimo fio de cabelo seu. Um ultimo toque seu. Tão de leve, mas você sentiu. Você sorriu mas não soube o por quê. Era eu. Nos teus cabelos castanhos e lisos esparramados pelo ombro branco e vivo. Aquela marca tão de leve que você pensou ter passado a unha sem-querer, era eu. Fui tão leve quanto as piscadas dos teus olhos verdes e macios. Eu te toquei com os lábios sem ter a intenção. Foi o teu cheiro, o teu mel que me atraiu para campos tão mais verdes.
O que me faz sentar nesta cadeira velha e barulhenta, gritando alto para o mundo inteiro - menos você - ouvir: Eu sempre te odiei, vaca!. É mentira, é mentira eu sei, mas não consigo evitar, preciso deste grito tanto quanto você precisa dos versos moles dele. Não estou sendo exagerado, é que ele não sabe nada de poesia e eu coleciono tantos dos seus elogios mortos.
Não me encaixo mais no mancebo velho do quintal. Ele guarda o teu cheiro de um estranho dia em que chovia e você veio. Veio radiante e reduzida a gotas quentes. Que verão! Que dia. Que desgraça a minha. Sou infeliz para sempre. Para sempre enquanto você atravessa as grossas lentes dos seus óculos de massa para olhar somente a ele. Ele que tem um cheiro tão corriqueiro, tão, tão. Cheiro. Um cheiro que não é aroma. É só cheiro como um copo é só copo e um beijo dele é só beijo. Quero o teu carinho, quero tantas outras nuvens laranjas ao teu lado. Os binóculos que não me deixam ver tua janela. Os vizinhos que não me deixam dormir e o seu cheiro guardado a sete chaves no fundo da minha memória cruel. Não. Não quero mais! Ele faz de propósito. Só ele me vê. Faz que não, mas como um cheiro que passa rapido e é facilmente dissolvido em outro cheiro ele me vê e te distrai com uma besteirinha que eu seria incapaz de pensar - de tão besteirinha que é. Talvez você nem ouça minhas palavras, nunca ache meu olhar de fada. Eu sou criança, imagino coisas. Você já foi. Passou e ele me cobriu, com um beijo no ombro, marcado de unha invisível.
Removi da imagem tudo o que pudesse me lembrar a sua figura, mas de nada adiantou, é minha inspiração e se move com tanta frequencia que é praticamente impossível tirar até o ultimo fio de cabelo seu. Um ultimo toque seu. Tão de leve, mas você sentiu. Você sorriu mas não soube o por quê. Era eu. Nos teus cabelos castanhos e lisos esparramados pelo ombro branco e vivo. Aquela marca tão de leve que você pensou ter passado a unha sem-querer, era eu. Fui tão leve quanto as piscadas dos teus olhos verdes e macios. Eu te toquei com os lábios sem ter a intenção. Foi o teu cheiro, o teu mel que me atraiu para campos tão mais verdes.
O que me faz sentar nesta cadeira velha e barulhenta, gritando alto para o mundo inteiro - menos você - ouvir: Eu sempre te odiei, vaca!. É mentira, é mentira eu sei, mas não consigo evitar, preciso deste grito tanto quanto você precisa dos versos moles dele. Não estou sendo exagerado, é que ele não sabe nada de poesia e eu coleciono tantos dos seus elogios mortos.
Não me encaixo mais no mancebo velho do quintal. Ele guarda o teu cheiro de um estranho dia em que chovia e você veio. Veio radiante e reduzida a gotas quentes. Que verão! Que dia. Que desgraça a minha. Sou infeliz para sempre. Para sempre enquanto você atravessa as grossas lentes dos seus óculos de massa para olhar somente a ele. Ele que tem um cheiro tão corriqueiro, tão, tão. Cheiro. Um cheiro que não é aroma. É só cheiro como um copo é só copo e um beijo dele é só beijo. Quero o teu carinho, quero tantas outras nuvens laranjas ao teu lado. Os binóculos que não me deixam ver tua janela. Os vizinhos que não me deixam dormir e o seu cheiro guardado a sete chaves no fundo da minha memória cruel. Não. Não quero mais! Ele faz de propósito. Só ele me vê. Faz que não, mas como um cheiro que passa rapido e é facilmente dissolvido em outro cheiro ele me vê e te distrai com uma besteirinha que eu seria incapaz de pensar - de tão besteirinha que é. Talvez você nem ouça minhas palavras, nunca ache meu olhar de fada. Eu sou criança, imagino coisas. Você já foi. Passou e ele me cobriu, com um beijo no ombro, marcado de unha invisível.
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