Quem sou eu

Minha foto
cartógrafo de letras, sensações e pássaros

18 maio, 2010

Estou cansado de mim mesmo. É difícil entender isso, mas acho que devo parar com essa mania de falar comigo mesmo, embora falar ajude-me a clarear os pensamentos. Enfim, resto-me só. Eu e as pombas que vejo pela janela, duas delas. Ao menos elas têm uma a outra, imagino, e esse meu vazio não se cura com conversas de pombo. Talvez a linguagem que me reste quando falo assim ao que puder me escutar seja uma linguagem primitiva, sons que só eu entenderia. Mas logo me canso e tudo que me restam são as pombas, a janela e eu mesmo. Imagino-me ali sobre os fios, tecendo horas de conversa resumidas a [barulho de pomba]. É, são quase seis da tarde, hora em que as pombas começam a procurar abrigo quente para dormir ou fazer o que quer que fazem as pombas depois das seis. Eu, com sorte ainda tenho uma poltrona e um colchão de molas que machuca as costas se me deitar no meio. Durmo de lado, evitando as molas traiçoeiras, mas vez ou outra me perco dos sonhos espetado em uma das molas. Talvez um dia tire as molas dali e o furo que se dane, antes o furo do que um rasgo nas costelas. Como doem as costelas quando as molas me alcançam em sono profundo. Deitado assim, à luz do dia que resta e evitando as molas sorrateiras me lembro que esqueci a porta da frente aberta. Talvez esse frio dolorido venha da porta, talvez não, talvez seja da janela, mas daí não posso fechá-la. Primeiro porque não quero e segundo porque está emperrada. Acho que já li todos os livros da cabeceira, das prateleiras e os que meu vizinho me deixou ali num canto empoeirado. Alguém precisa dar um jeito naquele canto, está impregnado de teias com insetos deixados à morte e esquecidos pela aranha que deve ter tecido a teia. Imagino onde estaria a aranha uma hora dessas, tenho pavor dela e de outras aranhas maiores. Imagine só, que meu vizinho deixou bem ali aqueles livros numa espécie de armadilhas. Ele deve saber que morro de medo de qualquer coisa com mais de quatro patas. Talvez então eu não tenha lido nenhum dos livros naquela sacola marrom, não li nem o que está escrito na sacola. A luz também não ajuda muito nessas horas, amanhã quem sabe. Volto a atenção para a janela e os pombos já partiram para outro fio ou talvez para alguma árvore. Agora me ocorre que não vejo os pombos nas árvores aqui perto, só nos fios. As árvores são cheias e talvez não possam se ver escondidos ali mesmo. Talvez estejam nas árvores, afinal, mas que sei eu da vida dos pombos? Sei da minha e já me enchi dela. Sei que são mais de seis horas porque já escureceu por completo. Como escurece rápido por aqui. Mas penso de novo que talvez seja só aqui, porque nas lembranças que tenho de outros lugares acho que escurecia mais cedo. Também lembro dos fios estarem mais distantes do chão do que agora, mas isso pode ser porque estou deitado na cama e encolhido no canto da parede. Imagino se meu vizinho vai passar por aqui hoje, faz tempo que não nos falamos. Vou dizer a ele que li todos os livros, vou dizer que tenho medo de aranhas e ele vai rir. Vai rir porque ele sabe, mas não me lembro de ter contado. Vou dizer a ele que a rua está meio parada e ele certamente me dirá o motivo. Meu vizinho sabe de tudo. Outro dia ele me disse que sabia que eu observava os pombos o dia inteiro, mas da minha janela ele não consegue me ver. Perguntei a ele como ele sabe e ele me disse que os pombos lhe disseram, que estão cada vez mais incomodados com meu hábito de espiá-los. Eu disse que era mentira, que os pombos não falam e nem escutam. Disse a ele que eles só conversam entre eles e que a língua deles é mais simples e os sons são quase sempre os mesmos. Que se ele falasse mesmo a língua dos pombos ele não saberia diferenciar um cumprimento de um xingamento. Eu disse a ele que se os pombos se incomodassem de verdade, já teriam se mudado de lugar, estariam talvez no fio do outro lado da rua. Os pombos gostam da minha companhia, por mais que não me entendam. Acho que outro dia entendi o que um deles disse ao outro. Eu estava falando com um deles e eles estavam conversando um com o outro, daí um deles disse para o outro que eu falava muito, que eu devia aprender a língua dos pombos. Daí eu ri e ele também riu. Mas não posso provar isso porque não havia ninguém aqui. Nunca há ninguém aqui. Estou esperando meu vizinho aparecer para contar essa história para ele, acho que ele vai gostar. Ele é a única pessoa com quem eu converso. Outro dia ele me perguntou porque eu era tão fechado e eu disse que tinha nascido assim. Disse que quando criança, as outras crianças tiravam sarro de mim, mas eu nunca me importei. Minha mãe sempre me dizia que se alguém mexesse comigo era para eu ficar quieto que eles iam parar. Mas os meninos da minha escola não paravam, eles queriam me ouvir de qualquer jeito, daí começavam a me chutar e me bater. Daí eu nem chorava, segurava bem forte e saía correndo. Só largava o ar quando eu chegava em casa e daí gritava e chorava e minha mãe me pegava no colo dizendo que tudo tinha passado. Eu ficava quieto, quieto e ela ia brigar com a mãe dos meninos. Minha mãe sempre cuidou muito bem de mim. Ela dizia que eu era um menino muito especial, que não importava o que as pessoas dissessem, eu era especial e elas não podiam fazer nada contra isso. Sinto falta da minha mãe, ela me faria companhia agora. Mas acho que só sinto falta dela, eu nem me lembro direito do resto da família, minha mãe não ia muito às festas da família, só de vez em quando que eles vinham em casa e eu ficava no quarto assisindo tevê. No meu quarto eu tinha um aquário e passava muito tempo olhando para ele também. Aprendi a falar a língua dos peixe muito rápido. Aprender a língua dos animais é fácil, mas demora. Você tem que olhar durante muito tempo, olhar e olhar, depois você fala na sua língua mesmo e olha, depois você fala e eles respondem na língua deles. Depois de muito tempo você os ouve falando como se eles falassem a sua língua. Quando vai ver já está falando a língua dos animais. Falo a língua dos peixes, dos gatos, dos canários e estou quase aprendendo a língua dos pombos. Os pombos, acho que não voltam hoje, mas não tem problema porque meu vizinho deve aparecer uma hora e eu vou contar a ele que li todos os livros dele, matei uma aranha com o livro mais pesado e se ele não acreditar, pode perguntar aos pombos que vão confirmar tudo.

16 março, 2010

Canto

As paredes já não se encolhem
não tentam me esmagar por dentro ou por fora
também por todos os lados
Mas o perigo reside nos cantos, nas esquinas
nas sombras que se formam nos angulos perigosos
que não parecem dormir
Me observam entre os cantos
dos meus olhos inquietos
Não sei se foram os dias ou as preocupações
as ameaças ou os inimigos invisíveis que criei sem motivo e
que se distraíram sem que eu percebesse,
sem que pudessem me tocar em uma tentativa de alertar-me
ou que pudessem ler minhas confissões apagadas nos cantos
Agora as paredes já não se encolhem na procura de outros cantos
Pudessem ser aqueles cantos mais silenciosos e seu vazio a
me arrastar para si, aqueles cantos que temo preencher com
palavras sem sentido ou baratas perdidas em nossas invenções
Os cantos sem sonhos e sem sentido que me fitam sem porquê
Se escondem nos cantos dos muros, dos homens, dos matos
O alívio de se espremer tentando fazer o mundo rodar e
a convicção de que tudo está bem, não há preocupações maiores
do que o silêncio dos cantos do lençol e da janela
de me encher da lama do mundo e de chorar pelos cantos
de amanhecer pronto e sem medo de encarar o sol
de sorrir porque convém, e não ao outro olhar que busca abrigo
Pode ser que as paredes ainda venham tentar me esmagar
pode ser também que as cores que vejo tenham menos importância
Pode ser uma amiga que não presta atenção na sua ferida dilacerada
que se esconde nos cantos da blusa e se sente maltratada e só
Pode ser que a vida se esgote e ninguém sinta nada, ninguém veja nada
e que o que sobrar seja um imenso deserto descampado, onde nem o vento
se sinta a vontade consigo mesmo e o horizonte encolha
até que se enxergue a outra margem de tudo e
se descubra o mesmo horizonte como se tudo fosse o reflexo de um espelho e
do outro lado não havia mais nada a fazer a não ser debruçar-se
sobre um canto cinzento

19 dezembro, 2009

Eu te amo

logo depois de embarcar no ônibus às 23:00 do dia 18 de dezembro, me veio esse texto inteiro à cabeça e mesmo com o escuro e o chacoalhar do ônibus, fui até o fim do que parecia ser uma carta de despedida.


Trinta minutos que estavam mais para duas horas. A setenta quilometros por hora no taxi, meu coração batia umas mil vezes. O que eu esqueci? Quanto tempo ainda tem? Quanto nós ainda temos? Calma, calma. Era inútil. tão inútil quanto contar os minutos... Tudo poderia acabar em questão de segundos, mas os minutos me cortavam mais de setenta vezes por segundo.
A cidade inteira parecia acompanhar nossa dor. Lugares vazios, luzes apagadas. O vento de ponta à ponta da praça sem ninguém para desafiá-lo. Estávamos a sós. Praticamente oito meses sem saber o que era essa dor de despedida, de medo da solidão e sofrer por antecipação uma divisão no peito que já era calculada, mas não levava em contao meu amor ao infinito. Branco e preto, doloroso e inevitável, meu coração parecia pressentir um desconforto que só depois teria nome.
Chegamos cedo, com folga para doer uma despedida que já começara bem antes, lá pelas nove da manhã. Devo confessar que foi um dia digno de ficar marcado, mesmo. Café, docinhos de goiaba e pão-de-mel, intercalados com beijos intermináveis que pretendiam guardar essa doçura da manhã para momentos cinzas e amargos. Inútil, porém a graça era a de imortalizar aqueles lábios de café e saudade porvir. Muito amor depois e alguns carinhos, apertando aqueles braços que sempre seriam meus, não importava onde fossem ou quem tocassem. Meus.
Por que o ônibus está tão vazio? Não previam paradas depois... Um barulho infernal vem me atormentar a cada dez minutos. Já estou há meia hora neste breve relato que vibra ao som das rodas ao meu lado. Nunca pensei em morte ou tragédia durante essas viagens, mas esta, não sei. Talvez por isso esta vontade de escrever apesar do movimento do ônibus tornar isso [quase] impossível.
Há alguns minutos da rodoviária tive vontade de acender um cigarro. Estaria traindo a mim mesmo, mas nunca trairia a ela, lembro.
Fui enganado. O ônibus está prestes a fazer uma parada. Já não sei mais até quando esse relato será viável. Não gosto de escrever com alguém ao meu lado. É tão, tão...meu. Sinto-me invadido, violado até.
Ela estava de óculos - e os detesta. Particularmente não me importo, chego até a gostar às vezes. Tem um certo charme, um ar intelectual ou que talvez desperte alguma fantasia inconsciente, não sei. Pensei em tirar uma fotografia nossa. Embora viva com uma imagem que nunca me sai da cabeça, gosto de guardar de forma real e concreta algum pedacinho dela e meu. Para quando levar a fotografia novamente à vista, traga junto os beijos e o abraço que sempre seriam e serão meus. Falar no futuro do pretérito dá uma falsa idéia de descontinuidade das coisas e me coloca certo medo. Não gosto.
Imortalizei então, nosso último momento sentado no banco de madeira junto das malas, mochilas, cavaquinho, sacola. Estas coisas que levamos de um lado para o outro conosco para ter um gosto de nós mesmos, onde quer que estejamos. Eu te amo, disse guardando a foto e nosso momento dentro de mim.
Levantei-me para comprar uma bala e dividir o troco do taxi. Essa mania de ser certa, embora eu sempre esteja em dívida com ela, digo, estava antes do risoto com vinho do jantar de ontem e do almoço de hoje (dois risotos diferentes). Estou com o risoto ao meu lado, mas de longe sei que ele não traz os bons momentos de hoje, junto do sabor.
Hoje foi um dia como outro qualquer, mas só pela saudade, tem um gosto inigualável de moldura e memória doce. Nossa despedida foi há tão pouco tempo e já me dói. Como dói. Eu te amo. Sempre.
Do futuro, nós nunca sabemos muito. Nossa despedida através do vidro... Lembrei agora que troquei de ônibus para pegar um lugar à janela e o ônibus demora uma hora a mais... Onde estava? Sim, nossa despedida pelo vidro. Sua blusa roxa, nossas palmas juntas sem se tocarem. Isso dói. O último toque dura para sempre, sinto isso e sinto-me vivo também. Mais do que nunca, essa ausência me faz crescer e apreciar a vida. Afinal, foi um ótimo ano, as férias sempre deixam essas lacunas para se viver a vida. Eu te amo. Sempre te amarei.

14 novembro, 2009

Ninguém é de ferro

Ver seu sorriso novo, desconfigurado é que me deixa com raiva. Sinto nos olhos dele a ameaça sutil de quando toca a minha pele sem querer, sem nem me ver. Passei, você não viu - ou fingiu que não. A minha mão é muito mais forte e quente do que a dele, encaixa perfeitamente nas suas costas nuas meio listradas.
Removi da imagem tudo o que pudesse me lembrar a sua figura, mas de nada adiantou, é minha inspiração e se move com tanta frequencia que é praticamente impossível tirar até o ultimo fio de cabelo seu. Um ultimo toque seu. Tão de leve, mas você sentiu. Você sorriu mas não soube o por quê. Era eu. Nos teus cabelos castanhos e lisos esparramados pelo ombro branco e vivo. Aquela marca tão de leve que você pensou ter passado a unha sem-querer, era eu. Fui tão leve quanto as piscadas dos teus olhos verdes e macios. Eu te toquei com os lábios sem ter a intenção. Foi o teu cheiro, o teu mel que me atraiu para campos tão mais verdes.
O que me faz sentar nesta cadeira velha e barulhenta, gritando alto para o mundo inteiro - menos você - ouvir: Eu sempre te odiei, vaca!. É mentira, é mentira eu sei, mas não consigo evitar, preciso deste grito tanto quanto você precisa dos versos moles dele. Não estou sendo exagerado, é que ele não sabe nada de poesia e eu coleciono tantos dos seus elogios mortos.
Não me encaixo mais no mancebo velho do quintal. Ele guarda o teu cheiro de um estranho dia em que chovia e você veio. Veio radiante e reduzida a gotas quentes. Que verão! Que dia. Que desgraça a minha. Sou infeliz para sempre. Para sempre enquanto você atravessa as grossas lentes dos seus óculos de massa para olhar somente a ele. Ele que tem um cheiro tão corriqueiro, tão, tão. Cheiro. Um cheiro que não é aroma. É só cheiro como um copo é só copo e um beijo dele é só beijo. Quero o teu carinho, quero tantas outras nuvens laranjas ao teu lado. Os binóculos que não me deixam ver tua janela. Os vizinhos que não me deixam dormir e o seu cheiro guardado a sete chaves no fundo da minha memória cruel. Não. Não quero mais! Ele faz de propósito. Só ele me vê. Faz que não, mas como um cheiro que passa rapido e é facilmente dissolvido em outro cheiro ele me vê e te distrai com uma besteirinha que eu seria incapaz de pensar - de tão besteirinha que é. Talvez você nem ouça minhas palavras, nunca ache meu olhar de fada. Eu sou criança, imagino coisas. Você já foi. Passou e ele me cobriu, com um beijo no ombro, marcado de unha invisível.