Quem sou eu

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cartógrafo de letras, sensações e pássaros

07 setembro, 2010

Falta

— Abre essa porta Magda, abre agora!
— Você tá me assustando Mauro. De verdade.
— Eu sei Magda, mas não sei mais o que fazer. Preciso falar com você. Abre a porta.
— Eu vou abrir, mas você tem que me prometer que não vai fazer nenhuma besteira.
— Eu só posso te prometer que não volto mais.
(Abre a porta)
— Às vezes você me assusta.
— Às vezes nem eu me reconheço, às vezes eu não sei mais o que eu estou fazendo aqui.
— Você não vai embora. Eu sei que não. Você é um mentiroso, sabia?
— Não é mentira, eu vou. Não volto mais. Digo, não volto mais para cá. Mas a gente ainda pode se cruzar.
— Você vai me falar para onde está indo? Vai me ligar? Vai me mandar cartas e postais por onde passar? Não vai. Você é assim mesmo, não é Mauro? Nunca vai conhecer o amor.
— O amor, Magda. É tudo tão, tão pouco palpável e pouco descritivo, não é?
— Não Mauro. O amor é tudo o que foge às descrições, porque tudo o que sabe sobre o mundo, você sabe e simplesmente entende. O amor foge de tudo isso, porque o amor anda no caminho contrário da nossa vida. É o amor que nos atrapalha. O amor é quem nos faz falhar.
— O amor não é feito de partículas. O amor não é uma coisa, é? O amor deve ser uma coisa tão menor que as outras e viaja perdido, mas quando encontra um corpo mais frio se transforma nessa monstruosidade que eu sou.
— Não, isso não. O amor é essa música que nós dois imaginamos agora, enquanto você me fala isso e enquanto eu penso no que eu poderia estar fazendo agora, mas não estou, poderia fugir, mas não vou, estou aqui, entende?
— Mas e quando as cosias se complicam e a única saída é se livrar de tudo? Magda, eu não sei mais o que é isso que você e eu chamamos de amor, eu não sinto mais nada. Eu só quero acabar com tudo e mesmo assim nada parece importar.
— Você não pode levar a vida tão a sério, Mauro, algumas coisas simplesmente passam e outras ficam. Eu sou uma árvore e você é uma folha.
— Eu não vou me desculpar, Magda. Nunca.
— Eu entendo, Mauro. Então os nossos caminhos vão se desatar e eu vou voltar a ser quem eu era e você vai ser quem você quer ser.
— E por que eu tenho que ser alguma coisa?
— Porque você nunca soube o que é se importar com alguém, a não ser quando estava aqui comigo. Mas isso já passou. E você agora volta a ser essa coisa que perambula e machuca tudo o que toca. Eu te amo, Mauro, mesmo que isso não signifique nada para você.
— Você vai voltar a tocar violino? Vai voltar para a escola? Vai voltar a deixar os cabelos crescerem? Vai pensar em mim?
— Eu vou fazer o que eu quiser e do jeito que eu quiser, do jeito que me der vontade Mauro. Eu quero que você vá embora agora.
— Eu não vou me despedir.
— Eu não vou voltar para a escola, nem para violino. Vou tingir os cabelos e não vou pensar em você porque você já foi embora assim que te conheci, você já é outra coisa, então eu não vou me despedir, só vou continuar te amando de um jeito que nem eu sei mais como é, porque eu já não sou mais eu e isso nem é mais a minha vida.

Piveteria

A pipa deu volta errada, ciscou no lustre e o cerol cortou tudo quanto era fio solto. Se reclamar, dá bicho, mas parece surdo o cagüeta. O pai do outro, tem espingarda calibre doze e ele, aos dez, se tem medo, encolhe e desafia. Escolhe o pé esquerdo e o tiro sai torto, acertando o filho, que era arteiro e ninguem contava. Aproveita o susto e se esparrama pra lá da calçada. Quando ninguém olha ele some, e quando faz silencio, o gatilho dispara pra cima. Se esconde de novo e só sai quando anoitece. Fechou o cerco e a sorte é certa, ou sossega ou se espreme entre os espinhos. Daí a boca seca cede à vontade de se ver solto, então salta desastrado e se estrepa no alumínio. A velha história: pulso quebrado, joelho amassado, carro empinado, guardinha alarmado e porrete no olho. Pé descalço, dinheiro de jogo, pistola de água e camisinha amassada. Algema de aço, banco de couro e no bolso de dentro ninguém sabe, um tesouro. Fim do jogo é folia, pneu assovia, vizinhança arrepia, menino de barro e varanda vazia. A luz roda, gira, muda, mil e um arcoiris, o som vai, cai, sai e insuportável é o choro. No fim da algazarra, criança tem asa e mulher é bicho pior que touro. Pivete é bandido, de pistola é patrão, mas quando vira a esquina toma tapa, é o camburão.
— Caiu, a casa caiu!

E o menino Joaquim, praiano, de menos de dez, olho roxo, joelho ralado, celular roubado, cumpre pena de dois anos.

23 julho, 2010

Leão

Ao chegar à casa de minha mãe, fui correndo inocente até o limoeiro e não o reconheci, era grande, só podia ser outro. Maior até que a pequena casinha e o casebre que cresci era inexplicavelmente menor. À medida que eu me sentava ao pé do limoeiro, seus ramos se entrelaçavam com ramos de outras árvores, algumas parasitas, algumas flores, alguns ninhos ressecados. O limoeiro havia amadurecido tanto, talvez já estivesse morrendo, talvez estivesse me esperando, então sorri. Não fosse a casa pequena, minha mãe pequena, não reconheceria mais meu antigo bairro, tudo agora era tão pequenino e frágil. É assim que eu descreveria a casa de minha mãe nesta última visita, frágil. Suas mãos tão rosadas e dobradas, o seu peito morno e cheiroso de mãe. Sempre o mesmo sorriso compadecido, ela sabia de tudo, sempre soube. E, no entanto, o limoeiro parecia me advertir sobre algo, como se a pequena senhorinha não fosse mais minha mãe, como se a casa quase ruindo fosse apenas uma casa, e aquele limoeiro enorme, que se disfarçava de carvalho, fosse um velho conhecido e me dissesse, como você cresceu.

18 maio, 2010

Estou cansado de mim mesmo. É difícil entender isso, mas acho que devo parar com essa mania de falar comigo mesmo, embora falar ajude-me a clarear os pensamentos. Enfim, resto-me só. Eu e as pombas que vejo pela janela, duas delas. Ao menos elas têm uma a outra, imagino, e esse meu vazio não se cura com conversas de pombo. Talvez a linguagem que me reste quando falo assim ao que puder me escutar seja uma linguagem primitiva, sons que só eu entenderia. Mas logo me canso e tudo que me restam são as pombas, a janela e eu mesmo. Imagino-me ali sobre os fios, tecendo horas de conversa resumidas a [barulho de pomba]. É, são quase seis da tarde, hora em que as pombas começam a procurar abrigo quente para dormir ou fazer o que quer que fazem as pombas depois das seis. Eu, com sorte ainda tenho uma poltrona e um colchão de molas que machuca as costas se me deitar no meio. Durmo de lado, evitando as molas traiçoeiras, mas vez ou outra me perco dos sonhos espetado em uma das molas. Talvez um dia tire as molas dali e o furo que se dane, antes o furo do que um rasgo nas costelas. Como doem as costelas quando as molas me alcançam em sono profundo. Deitado assim, à luz do dia que resta e evitando as molas sorrateiras me lembro que esqueci a porta da frente aberta. Talvez esse frio dolorido venha da porta, talvez não, talvez seja da janela, mas daí não posso fechá-la. Primeiro porque não quero e segundo porque está emperrada. Acho que já li todos os livros da cabeceira, das prateleiras e os que meu vizinho me deixou ali num canto empoeirado. Alguém precisa dar um jeito naquele canto, está impregnado de teias com insetos deixados à morte e esquecidos pela aranha que deve ter tecido a teia. Imagino onde estaria a aranha uma hora dessas, tenho pavor dela e de outras aranhas maiores. Imagine só, que meu vizinho deixou bem ali aqueles livros numa espécie de armadilhas. Ele deve saber que morro de medo de qualquer coisa com mais de quatro patas. Talvez então eu não tenha lido nenhum dos livros naquela sacola marrom, não li nem o que está escrito na sacola. A luz também não ajuda muito nessas horas, amanhã quem sabe. Volto a atenção para a janela e os pombos já partiram para outro fio ou talvez para alguma árvore. Agora me ocorre que não vejo os pombos nas árvores aqui perto, só nos fios. As árvores são cheias e talvez não possam se ver escondidos ali mesmo. Talvez estejam nas árvores, afinal, mas que sei eu da vida dos pombos? Sei da minha e já me enchi dela. Sei que são mais de seis horas porque já escureceu por completo. Como escurece rápido por aqui. Mas penso de novo que talvez seja só aqui, porque nas lembranças que tenho de outros lugares acho que escurecia mais cedo. Também lembro dos fios estarem mais distantes do chão do que agora, mas isso pode ser porque estou deitado na cama e encolhido no canto da parede. Imagino se meu vizinho vai passar por aqui hoje, faz tempo que não nos falamos. Vou dizer a ele que li todos os livros, vou dizer que tenho medo de aranhas e ele vai rir. Vai rir porque ele sabe, mas não me lembro de ter contado. Vou dizer a ele que a rua está meio parada e ele certamente me dirá o motivo. Meu vizinho sabe de tudo. Outro dia ele me disse que sabia que eu observava os pombos o dia inteiro, mas da minha janela ele não consegue me ver. Perguntei a ele como ele sabe e ele me disse que os pombos lhe disseram, que estão cada vez mais incomodados com meu hábito de espiá-los. Eu disse que era mentira, que os pombos não falam e nem escutam. Disse a ele que eles só conversam entre eles e que a língua deles é mais simples e os sons são quase sempre os mesmos. Que se ele falasse mesmo a língua dos pombos ele não saberia diferenciar um cumprimento de um xingamento. Eu disse a ele que se os pombos se incomodassem de verdade, já teriam se mudado de lugar, estariam talvez no fio do outro lado da rua. Os pombos gostam da minha companhia, por mais que não me entendam. Acho que outro dia entendi o que um deles disse ao outro. Eu estava falando com um deles e eles estavam conversando um com o outro, daí um deles disse para o outro que eu falava muito, que eu devia aprender a língua dos pombos. Daí eu ri e ele também riu. Mas não posso provar isso porque não havia ninguém aqui. Nunca há ninguém aqui. Estou esperando meu vizinho aparecer para contar essa história para ele, acho que ele vai gostar. Ele é a única pessoa com quem eu converso. Outro dia ele me perguntou porque eu era tão fechado e eu disse que tinha nascido assim. Disse que quando criança, as outras crianças tiravam sarro de mim, mas eu nunca me importei. Minha mãe sempre me dizia que se alguém mexesse comigo era para eu ficar quieto que eles iam parar. Mas os meninos da minha escola não paravam, eles queriam me ouvir de qualquer jeito, daí começavam a me chutar e me bater. Daí eu nem chorava, segurava bem forte e saía correndo. Só largava o ar quando eu chegava em casa e daí gritava e chorava e minha mãe me pegava no colo dizendo que tudo tinha passado. Eu ficava quieto, quieto e ela ia brigar com a mãe dos meninos. Minha mãe sempre cuidou muito bem de mim. Ela dizia que eu era um menino muito especial, que não importava o que as pessoas dissessem, eu era especial e elas não podiam fazer nada contra isso. Sinto falta da minha mãe, ela me faria companhia agora. Mas acho que só sinto falta dela, eu nem me lembro direito do resto da família, minha mãe não ia muito às festas da família, só de vez em quando que eles vinham em casa e eu ficava no quarto assisindo tevê. No meu quarto eu tinha um aquário e passava muito tempo olhando para ele também. Aprendi a falar a língua dos peixe muito rápido. Aprender a língua dos animais é fácil, mas demora. Você tem que olhar durante muito tempo, olhar e olhar, depois você fala na sua língua mesmo e olha, depois você fala e eles respondem na língua deles. Depois de muito tempo você os ouve falando como se eles falassem a sua língua. Quando vai ver já está falando a língua dos animais. Falo a língua dos peixes, dos gatos, dos canários e estou quase aprendendo a língua dos pombos. Os pombos, acho que não voltam hoje, mas não tem problema porque meu vizinho deve aparecer uma hora e eu vou contar a ele que li todos os livros dele, matei uma aranha com o livro mais pesado e se ele não acreditar, pode perguntar aos pombos que vão confirmar tudo.

16 março, 2010

Canto

As paredes já não se encolhem
não tentam me esmagar por dentro ou por fora
também por todos os lados
Mas o perigo reside nos cantos, nas esquinas
nas sombras que se formam nos angulos perigosos
que não parecem dormir
Me observam entre os cantos
dos meus olhos inquietos
Não sei se foram os dias ou as preocupações
as ameaças ou os inimigos invisíveis que criei sem motivo e
que se distraíram sem que eu percebesse,
sem que pudessem me tocar em uma tentativa de alertar-me
ou que pudessem ler minhas confissões apagadas nos cantos
Agora as paredes já não se encolhem na procura de outros cantos
Pudessem ser aqueles cantos mais silenciosos e seu vazio a
me arrastar para si, aqueles cantos que temo preencher com
palavras sem sentido ou baratas perdidas em nossas invenções
Os cantos sem sonhos e sem sentido que me fitam sem porquê
Se escondem nos cantos dos muros, dos homens, dos matos
O alívio de se espremer tentando fazer o mundo rodar e
a convicção de que tudo está bem, não há preocupações maiores
do que o silêncio dos cantos do lençol e da janela
de me encher da lama do mundo e de chorar pelos cantos
de amanhecer pronto e sem medo de encarar o sol
de sorrir porque convém, e não ao outro olhar que busca abrigo
Pode ser que as paredes ainda venham tentar me esmagar
pode ser também que as cores que vejo tenham menos importância
Pode ser uma amiga que não presta atenção na sua ferida dilacerada
que se esconde nos cantos da blusa e se sente maltratada e só
Pode ser que a vida se esgote e ninguém sinta nada, ninguém veja nada
e que o que sobrar seja um imenso deserto descampado, onde nem o vento
se sinta a vontade consigo mesmo e o horizonte encolha
até que se enxergue a outra margem de tudo e
se descubra o mesmo horizonte como se tudo fosse o reflexo de um espelho e
do outro lado não havia mais nada a fazer a não ser debruçar-se
sobre um canto cinzento