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cartógrafo de letras, sensações e pássaros

07 setembro, 2010

Piveteria

A pipa deu volta errada, ciscou no lustre e o cerol cortou tudo quanto era fio solto. Se reclamar, dá bicho, mas parece surdo o cagüeta. O pai do outro, tem espingarda calibre doze e ele, aos dez, se tem medo, encolhe e desafia. Escolhe o pé esquerdo e o tiro sai torto, acertando o filho, que era arteiro e ninguem contava. Aproveita o susto e se esparrama pra lá da calçada. Quando ninguém olha ele some, e quando faz silencio, o gatilho dispara pra cima. Se esconde de novo e só sai quando anoitece. Fechou o cerco e a sorte é certa, ou sossega ou se espreme entre os espinhos. Daí a boca seca cede à vontade de se ver solto, então salta desastrado e se estrepa no alumínio. A velha história: pulso quebrado, joelho amassado, carro empinado, guardinha alarmado e porrete no olho. Pé descalço, dinheiro de jogo, pistola de água e camisinha amassada. Algema de aço, banco de couro e no bolso de dentro ninguém sabe, um tesouro. Fim do jogo é folia, pneu assovia, vizinhança arrepia, menino de barro e varanda vazia. A luz roda, gira, muda, mil e um arcoiris, o som vai, cai, sai e insuportável é o choro. No fim da algazarra, criança tem asa e mulher é bicho pior que touro. Pivete é bandido, de pistola é patrão, mas quando vira a esquina toma tapa, é o camburão.
— Caiu, a casa caiu!

E o menino Joaquim, praiano, de menos de dez, olho roxo, joelho ralado, celular roubado, cumpre pena de dois anos.

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