— Abre essa porta Magda, abre agora!
— Você tá me assustando Mauro. De verdade.
— Eu sei Magda, mas não sei mais o que fazer. Preciso falar com você. Abre a porta.
— Eu vou abrir, mas você tem que me prometer que não vai fazer nenhuma besteira.
— Eu só posso te prometer que não volto mais.
(Abre a porta)
— Às vezes você me assusta.
— Às vezes nem eu me reconheço, às vezes eu não sei mais o que eu estou fazendo aqui.
— Você não vai embora. Eu sei que não. Você é um mentiroso, sabia?
— Não é mentira, eu vou. Não volto mais. Digo, não volto mais para cá. Mas a gente ainda pode se cruzar.
— Você vai me falar para onde está indo? Vai me ligar? Vai me mandar cartas e postais por onde passar? Não vai. Você é assim mesmo, não é Mauro? Nunca vai conhecer o amor.
— O amor, Magda. É tudo tão, tão pouco palpável e pouco descritivo, não é?
— Não Mauro. O amor é tudo o que foge às descrições, porque tudo o que sabe sobre o mundo, você sabe e simplesmente entende. O amor foge de tudo isso, porque o amor anda no caminho contrário da nossa vida. É o amor que nos atrapalha. O amor é quem nos faz falhar.
— O amor não é feito de partículas. O amor não é uma coisa, é? O amor deve ser uma coisa tão menor que as outras e viaja perdido, mas quando encontra um corpo mais frio se transforma nessa monstruosidade que eu sou.
— Não, isso não. O amor é essa música que nós dois imaginamos agora, enquanto você me fala isso e enquanto eu penso no que eu poderia estar fazendo agora, mas não estou, poderia fugir, mas não vou, estou aqui, entende?
— Mas e quando as cosias se complicam e a única saída é se livrar de tudo? Magda, eu não sei mais o que é isso que você e eu chamamos de amor, eu não sinto mais nada. Eu só quero acabar com tudo e mesmo assim nada parece importar.
— Você não pode levar a vida tão a sério, Mauro, algumas coisas simplesmente passam e outras ficam. Eu sou uma árvore e você é uma folha.
— Eu não vou me desculpar, Magda. Nunca.
— Eu entendo, Mauro. Então os nossos caminhos vão se desatar e eu vou voltar a ser quem eu era e você vai ser quem você quer ser.
— E por que eu tenho que ser alguma coisa?
— Porque você nunca soube o que é se importar com alguém, a não ser quando estava aqui comigo. Mas isso já passou. E você agora volta a ser essa coisa que perambula e machuca tudo o que toca. Eu te amo, Mauro, mesmo que isso não signifique nada para você.
— Você vai voltar a tocar violino? Vai voltar para a escola? Vai voltar a deixar os cabelos crescerem? Vai pensar em mim?
— Eu vou fazer o que eu quiser e do jeito que eu quiser, do jeito que me der vontade Mauro. Eu quero que você vá embora agora.
— Eu não vou me despedir.
— Eu não vou voltar para a escola, nem para violino. Vou tingir os cabelos e não vou pensar em você porque você já foi embora assim que te conheci, você já é outra coisa, então eu não vou me despedir, só vou continuar te amando de um jeito que nem eu sei mais como é, porque eu já não sou mais eu e isso nem é mais a minha vida.
07 setembro, 2010
Piveteria
A pipa deu volta errada, ciscou no lustre e o cerol cortou tudo quanto era fio solto. Se reclamar, dá bicho, mas parece surdo o cagüeta. O pai do outro, tem espingarda calibre doze e ele, aos dez, se tem medo, encolhe e desafia. Escolhe o pé esquerdo e o tiro sai torto, acertando o filho, que era arteiro e ninguem contava. Aproveita o susto e se esparrama pra lá da calçada. Quando ninguém olha ele some, e quando faz silencio, o gatilho dispara pra cima. Se esconde de novo e só sai quando anoitece. Fechou o cerco e a sorte é certa, ou sossega ou se espreme entre os espinhos. Daí a boca seca cede à vontade de se ver solto, então salta desastrado e se estrepa no alumínio. A velha história: pulso quebrado, joelho amassado, carro empinado, guardinha alarmado e porrete no olho. Pé descalço, dinheiro de jogo, pistola de água e camisinha amassada. Algema de aço, banco de couro e no bolso de dentro ninguém sabe, um tesouro. Fim do jogo é folia, pneu assovia, vizinhança arrepia, menino de barro e varanda vazia. A luz roda, gira, muda, mil e um arcoiris, o som vai, cai, sai e insuportável é o choro. No fim da algazarra, criança tem asa e mulher é bicho pior que touro. Pivete é bandido, de pistola é patrão, mas quando vira a esquina toma tapa, é o camburão.
— Caiu, a casa caiu!
E o menino Joaquim, praiano, de menos de dez, olho roxo, joelho ralado, celular roubado, cumpre pena de dois anos.
— Caiu, a casa caiu!
E o menino Joaquim, praiano, de menos de dez, olho roxo, joelho ralado, celular roubado, cumpre pena de dois anos.
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