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cartógrafo de letras, sensações e pássaros

22 setembro, 2013

Resenha biográfica


Nasci numa rua torta no canto do umbigo de São Paulo
perto de um rio fedido onde ninguém ia nadar

Entre os apartamentos e as ruazinhas espremidas
eu dava de cara com um parque verde, muito bacana
a gente soltava pipa, andava de bike e ralava os joelhos.

Tinha muita chuva, muito carro, uma barulheira
mas não é isso que eu me lembro de lá
eu me lembro das escolas por onde eu passei

E a cada vez que eu trocava de escola, eu pensava
que nenhuma escola podia dar conta da vida só com livros.

Hoje parece uma coisa besta, mas na época eu me lembro
de pensar que a escola servia para visitar os amigos
                            [e isso eu tive a sorte de ter.

Avançando no tempo, eu me lembro de descobrir
que São Paulo não era uma prisão, era um lugar enorme
onde ninguém poderia nos encontrar, se agente quisesse
(mas vez ou outra, eu topava com a minha ex-namorada
com aquele cara que me ameaçava no primário, com rato morto).

Então eu tentei me esconder um dia, em um lugar que eu nunca
tinha ido antes. E lá passava um onibus com o nome do meu bairro
assim que eu desci do onibus, outro onibus ligou e foi saindo
e eu saí correndo atrás dele, com medo de me esquecer onde eu morava.

E me lembro de certo dia pensar, como é que se vive por aqui?
Percorrendo sempre os mesmos lugares, numa cidade tão grande
que dá até medo de se perder. E comecei a sair observando as pessoas.
As mesmas pessoas que gritam nos semáforos, que jogam panfletos no chão
sem nem ao menos ler a primeira página.

Acho que em algum momento eu me dei conta de que a vida lá seria
um saco. E eu nem tinha começado a trabalhar e já queria me aposentar.
Então eu fui fazer faculdade fora de São Paulo.

Senti medo, de não saber nada. Mas olha que coisa engraçada.
Assim que eu me lavei de São Paulo, como num banho bem longo,
de umas duas semanas.

Eu comecei a andar mais devagar, porque não tinha pressa. Eu consegui ouvir
os barulhos no silêncio, que era uma coisa assustadora demais. E eu me senti
sozinho, mas foi um sozinho bom, como se eu não estivesse sendo observado.

Eu ouvi bom dia de gente que eu nunca tinha visto antes. E dei bom dia.
E não necessariamente foi um bom dia.

E agora, vez ou outra me perguntam se eu vou voltar para lá
e às vezes eu respondo que não, as vezes que sim, e às vezes
invento alguma coisa para não responder nada, porque não dá
mesmo para saber para onde vai a nossa vida, no máximo para onde
se quer leva-la, se ela couber.

Eu acho que o buraco que eu deixei em São Paulo, quando eu saí
foi tão pequeno que alguém já tomou ele, sem querer.
E o esforço para caber de volta é tão grande que eu vou
ficar só espiando o movimento, um pouco de longe,
esperando alguma hora tranquila para poder me despedir.

Assis, 22 de setembro de 2013.

22 agosto, 2013

Prefácio para um Curriculum Vitae


Tenho vinte e três anos e estou no quinto e último ano de Psicologia. A todo momento me perguntam “E aí? Já sabe o que vai fazer?”, isso nos melhores dias. Há dias em que tento me esquivar dos antiquíssimos “Vai atender criança ou adulto?”. Outros dias me arrependo de confessar minha condição de estudante. “Mas vai abrir consultório ou vai para empresa?”, e desvio como um pugilista, devolvendo “Hoje em dia há uma porção de lugares para um psicólogo, nas escolas, na consultoria, na saúde pública, em projetos sociais etc.”. Mas compreendo que é só uma maneira de se puxar assunto, assim como se pergunta a um adolescente sobre namoros, a escola. Nem a gente que estuda cinco anos sabe bem o que é que vai fazer um psicólogo solto no mercado de trabalho.
        Mas junto destas respostas, temo ter que confessar o inevitável. Não tenho jeito para psicólogo. E quando digo isso podem bem me dizer que sou ótimo para ouvir os outros, que sou atencioso, que não tiro conclusões precipitadas. Que tenho quase as qualidades de um barman importado direto dos filmes ou de um taxista das metrópoles — depósito imaginário das histórias mais absurdas e usuais da humanidade. Outra característica comum entre estas pessoas com quem tenho me encontrado nos últimos cinco anos é deduzir que um estudante de psicologia tem paixão (e talvez a necessidade) de escutar meticulosamente a vida alheia, estando disponível principalmente em longas viagens de ônibus para terapias intermináveis, tanto do passageiro ao lado quanto de seus familiares que nem se encontram no ônibus. Tenho uma prima que é meio psicossomática, sabe? O problema dela é que ...
           Mas o que então eu quero fazer depois de formado? E esta é uma pergunta que eu me faço desde muito antes de assinalar Psicologia na lista do vestibular. É uma pergunta maldita para alguns. O que é que eu vou fazer da vida? Eu gostaria até de poder responde-la definitivamente. Mas nem quase eu consigo. Então eu volto para a infância, perto das memórias guardadas, bem perto da primeira briga, da primeira vez que me mijei na escola. Lá eu vejo um menino de uns oito anos virando para os pais e perguntando se existe criança escritora. E um tempo depois um menino que começa a escrever crônicas, emitir opiniões sobre o que é ser criança e outras coisas. Às vezes ele diz para os outros que quer ser escritor. As imagens deste menino são bruscamente arrancadas dos meus olhos, como se me arrancassem da mão uma fotografia, e nos dedos seguro as bordas do papel rasgado.
            Durante minha graduação em Psicologia tentei escrever dois livros de contos, que de tantas revisões, enxertos, acabaram por se perder, restando alguns contos de valor sentimental e quase nenhum valor literário. Um romance escrito durante um feriado, que serviu de experiência para lidar com a solidão. Dois blogs de poesia, agrupados em um documento de Word, que seguem o curso tímido e intimo da poesia, e uma série de textos inacabados, confissões em um diário no Bloco de Notas, vários cadernos espalhados pela casa com ideias para livros e contos que nunca vou continuar.
       Tentei abraçar a produção literária, criando um jornal literário artístico junto com dois amigos, uma experiência incrível do que é trabalhar em equipe, sem apoio de ninguém, lidando com estruturas e burocracias do serviço público. O jornal rodou pelo Campus, viajou em alguns estados e agora repousa em sua aposentadoria precoce.
          Estive durante a graduação, tão preocupado em escrever para virar escritor e acho que deixei de lado a formação para a qual eu me inscrevi. E não me arrependo. Acho inclusive que aprendi mais de Psicologia às margens da faculdade do que na sala de aula. Acho que aprendi mais sobre a vida, sobre como conduzir minhas ações levando em conta seus desdobramentos na vida dos outros, fazendo e perdendo amigos do que aprenderia nas aulas de Ética. Aprendi mais sobre como intervir numa crise de ansiedade, durante as madrugadas de república do que num manual de psicopatologias. Tive que me recompor ao perceber que os valores que eu carregava em mim eram pedaços de discursos que estavam entranhados em mim, feito cacos de vidro depois de um acidente de carro. E isto nenhuma aula de Processos de Subjetivação ou Psicanálise poderia ter feito.
       Através de uma formação em psicologia, muito vivi e experimentei. O que não pude experimentar, inventei. A psicologia é como um rio caudaloso e agitado que te joga para as margens, te engole e depois cospe adiante, às vezes seca em um lugar, e logo alarga e faz circular outras coisas, que como todas as coisas fluidas, são passageiras. Só a viagem permanece. E se a psicologia me jogar para um caminho, tudo bem. Se eu resolver descer e ir a pé por outro, pode ser também. O que eu quero fazer da vida? Vou experimentar o que ela me der, e se não for o bastante, vou inventando junto.



13 junho, 2013

Detetives mexicanos em um vazio selvagem

Aproximações entre os Detetives Selvagens e o Vazio Tropical.


Duas obsessões me atormentam esta semana:

A primeira é o término iminente do (gigante) Detetives Selvagens de Roberto Bolaño, publicado pela Cia das Letras, tradução de Eduardo Brandão. Restam umas trinta páginas desta viagem calorosa pela literatura latino americana ao lado dos personagens Arturo Belano e Ulises Lima e todos os seus arredores de poetas (pra lá de uns quarenta que vêm e vão pela obra para nos contar sobre estes dois ou sobre si mesmos).

Outra é a repetição incessante do disco Vazio Tropical do cantor e compositor Wado. Um álbum que impressiona com sua simplicidade lírica e expõe a melancolia sutil do compositor. O disco foi produzido pelo também cantor e compositor Marcelo Camelo e é tecido ao lado de outros expoentes da chamada jovem MPB, são eles, Cicero, Momo, Marcelo Camelo e outros.

O fato é que estes dois acontecimentos - utilizo aqui a definição do Dicionário Houaiss que define acontecimento tal como "o que acontece ou se realiza de modo inesperado; acaso, eventualidade ou ainda pessoa ou fato digno de nota, que produz viva sensação ou constitui grande êxito; sucesso" - me perseguem, a todo instante, me invadem quando estou concentrado em outra coisa, durante o trabalho, etc. Então deixem me tecer algumas considerações sobre eles.

Sobre o primeiro há muito o que dizer, talvez assunto que nunca se acabe. Talvez desse umas vinte páginas só de coisas que consigo conceber de supetão, dados o contexto da narrativa e o histórico do autor, as relações descritas no livro e as centenas de referências que Roberto Bolaño sempre apresenta consigo.
Neste breve texto, me reportarei apenas a uma situação específica do livro. Para quem não leu, não se trata de uma história linear por excelência, mas de fragmentos colhidos por diversos personagens sobre estes dois nomes: Arturo Belano e Ulises Lima, brevemente apresentados no inicio do livro sob a narrativa no diario do jovem poeta García Madero. Neste pequeno excerto, procurarei me deter em traçar algumas ideias acerca de um personagem chamado Joaquim Fónt, também conhecido como Quim Fónt.

Quím Fónt é pai de duas meninas que aparecem logo no começo do livro, Maria e Angelica. É um arquiteto com certo renome na Cidade do México e participa a pedido dos poetas Arturo e Ulises da revista de poesia real-visceralista, do movimento real-visceralista (movimento literário fictício na obra de Bolaño que encontra inspiração no movimento infrarrealista do qual Roberto Bolaño fez parte). Quím é um workaholic e é sempre lembrado como louco ou a ponto de enlouquecer por vários personagens do livro. No começo do livro, relatam ao poeta Garcia Madero que Joaquim Font está a ponto de enlouquecer de pensar na possibilidade de sua filha mais nova Angelica Font perder a virgindade, mas logo o poeta faz amizade com Joaquim e descobre nele um aliado e um amigo que o auxilia em diversas ocasiões. 
Quim Fónt é responsável pela diagramação da revista real-visceralista, trabalho o qual o esgota profundamente e lhe tira o sono, dada sua possível repercussão no circuito literário mexicano. Quim anseia um projeto vanguardista que irá deixar os mexicanos de queixo no chão, tamanha sua inovação, tamanho é seu talento vanguardista, que faz jus ao movimento também vanguardista de poesia. 

Mais adiante na história, vemos Quím Fónt internado em uma instituição manicomial, na qual ele se encontra sob efeito de drogas, sem lembrar de algumas pessoas. Outros personagens associam seu surto à perda de um automóvel que empresta aos poetas Arturo, Ulises e Garcia Madero mais uma amiga de sua filha para fugirem para Sonora. O automóvel em questão, um Impala, sonho de consumo de Quim é descrito como um carro que ele pouco usava, mas muito estimava e reparece em algumas alucinações de Quim mais à frente.

Durante o tempo que passa, Quim Font tem devaneios, alguns decorrentes do surto, outros associados à forte medicação. Porém, sua relação com os outros internos é interessante de se discutir, bem como sua relação com o psiquiatra, do qual rapidamente fez amizade. Quim está consciente de sua condição, mas nunca manifesta vontade de sair da instituição, considera a experiência como um tempo. E passa muitos anos variando entre instituições. Passam-se anos até que ele se recupere totalmente, e de lá de dentro Quim expõe seus pensamentos com muita clareza, com muita originalidade, uma visão que não é nem do doente mental, nem do seu familiar ou dos funcionários. Quase como se fosse alheio à lógica asilar, Quim é capaz de pensar a arquitetura, as relações entre a instituição e o fora dela, assim como o dentro da instituição e o fora. Quim parece desligado de qualquer filiação com sua família e com a instituição. Às vezes as filhas vêm visitá-lo, às vezes lembra-se delas, outras um amigo antigo o visita em sonhos e então seus devaneios tomam rumos filosóficos e ficamos diante de um espectador da própria vida.

Quando Quim sai, e já se passaram 11 anos, está sem emprego, divorciado, suas filhas já tem suas próprias vidas, depara-se com um Mexico quase nos anos 90, e às vezes parece distante de si mesmo, quando relata que não sente mais dor. Quim procura seus colegas em busca de emprego e evita admitir que esteve internado estes anos todos. Conta histórias de viagens a seus colegas, que esteve por todos os cantos do mundo, descreve suas viagens e acontecimentos que teria vivenciado, sem deixar de confirmar que sim, esteve internado, mas por pouco tempo, os outros anos passou viajando. Quim vai aos poucos recompondo sua antiga vida, arrumando empregos de desenhista para outros arquitetos, mas sempre revisitado por seus devaneios fragmentados. Em sua última conversa com o livro, Quim relata ver seu Impala, gasto já pelos anos, aquele Impala 74 que tinha sido emprestado aos poetas e começa a fazer associações sobre sua vida, sobre a vida no méxico, sobre os escritores e poetas, sobre os acontecimentos de sua vida e sua percepção das coisas. Quim, diante de todos estes fragmentos nos deixa com o seguinte pensamento: 

"Quando já tinha percorrido metade do caminho, tive uma ideia e me virei, mas o Impala não estava mais na rua, visto e não visto, agora está, agora não está mais, a rua tinha se transformado num quebra-cabeça de penumbra e que faltavam várias peças, e uma das peças que faltavam, curiosamente era eu mesmo. Meu Impala tinha ido embora. Eu, de maneira que não conseguia compreender, também tinha ido. Meu Impala havia voltado à minha mente. eu havia voltado à minha mente. Soube então, com humildade, com perplexidade, num arroubo de mexicanidade absoluto, que éramos governados pelo acaso, e que nessa tormenta todos nós nos nos afogaríamos, e soube que só os mais astutos, com certeza eu não estava entre eles, iriam se manter à superfície por um pouco mais de tempo."

Sobre isto, que não sei bem como desenvolver, acho que é possível pensar algumas coisas, mas talvez esta seja a minha percepção do livro e da história, de como um livro pode tomar-nos, sem que percebamos e já somos outros. De como uma história, em certa medida distante, mas ali no Mexico pode nos atravessar ao ponto de reconhecer em Quim tantos outros eus, tantos Josés, Marianos, tantos outros Joaquins também. Como a busca incessante por algo extraordinariamente novo e vanguardista pode ser uma busca vazia, que nos coloca no limite físico e psicológico da loucura. Em ultima análise, para onde vai a loucura, qual é seu território?

E claro, puxando para minha área de conhecimento que é a Psicologia, mais especificamente nos estudos sobre a loucura e também (como não dizer) da psiquiatria que produz as verdades sobre a loucura. Mas isto é tema para outra conversa, um  estudo bem maior. Aqui quero deixar registrado, de forma as vezes meio desconexa e confusa a história de Joaquim Font, dentro desta grandiosa obra Detetives Selvagens

--

Sobre o segundo, depois de escrever tantas coisas sobre o livro, me proponho a dizer que ambas as escritas  de Wado como a de Bolaño são sofisticadas no sentido de que não estão para brincadeiras com a escrita, falam sem nenhuma prolixidade, são muito cuidadosos com as palavras que escolhem, texto simples que abre espaço para profundas interpretações. Não quero aqui, finalizar a discussão, tanto entre os dois, quanto de cada um, esta é apenas uma das possíveis leituras. Com sorte, em ambas as obras e os respectivos autores cabem infinitas leituras e aproximações, o que denota seu valor estético, bem como seus desdobramentos de ordem teórica. Registro aqui algumas ideias que tive e que estou tendo enquanto escrevo, pois o exercício é sempre produtivo e produtor.

Bolaño discorre sobre a poesia, sobre a vida dos poetas no México dos anos 70 e 80, sobre as relações de amizade e de trabalho fora do país. Wado, distanciado no tempo, aproxima-se do chileno no lirismo. Fala de infâncias, de imagens poéticas, de inventar-se na cidade. Seu Vazio é próximo do vazio dos poetas real visceralistas do livro. Não se trata aqui de um vazio individual ou de uma sensibilidade que se inventa no interior privado. Ambos parecem anunciar um grito por sensibilidade, mas um sensível que se coloca aberto para o diálogo com o outro. 

Apesar da figura melancólica que o vazio remete, essa melancolia se traduz em um estado de suspensão e apresentam originalidade, ambos tem um ritmo muito próprio, uma cadência que apodera-se de seu leitor ou de quem ouve o músico. Neste ponto, o leitor alinha-se à experiencia do ouvinte, dado que o tom que Bolaño usa em seus livros, apesar de não ter nada de música, não produz uma ansiedade pelo fim da história, mas algo muito próximo à música, de se apreciar o arranjo construído. Como se o desenrolar da história fosse interrompido por um holofote que se coloca ora na a forma literária, no manejo dos personagens, na construção dos cenários, no desenvolvimento dos personagens, ora nas descrições e associações do escritor, nas figuras de linguagem. O final apresenta-se como num concerto musical, muito mais como a consolidação da história do que o desvelamento de um segredo, um ponto de chegada. Como assinatura, Bolaño sempre dá um tom abrupto aos finais, quase como se lhe arrancassem a caneta no susto. Wado também encontra intersecções neste ponto. O Vazio Tropical termina e deixa a sensação de que algo foi perdido durante sua execução. Talvez até o próprio final deixe esta sensação, de um disco que é permeado pelos silêncios, tanto que quando acaba, parece continuar tocando e reverberando pelo corpo todo. Os poetas de Bolaño compartilham dessa característica: apesar de invisíveis, permanecem percorrendo o sangue, produzindo barulhos por dentro.  

28 maio, 2013

Um jardim




No jardim
daqui

onde repousa
o berço
da cidade aturdida

é comum ouvir

os passaros desfilando
plantados no ar
admirando

as acrobacias
que o vento faz
pra não atrapalhar as plantas.




11 abril, 2013

Diagramas do cotidiano





  • Começar um texto é como procurar terreno. Procurar em toda sua extensão indícios ou pistas. A pretensão de escrever um texto grandioso é como a pretensão de encontrar ouro em um terreno baldio.
  • Não se trata de escavar, mas de varrer a superfície. Talvez como um arqueólogo. Talvez começar escovando as palavras com Manoel de Barros. Talvez brincando com os dedos sobre a poeira igual criança. Procurar feridas. Percorrer a pele em busca de hematomas. Sangue seco. 
  • Brincar na terra, experimentar o corpo sujo de lama. Entrar em contato com a própria pele. As raizes às vezes são rasteiras. Fazer-se orquídea. Entrar em minhoca. Coexistir nos fungos. Permear as formigas, os cupins. Desabotoar-se nas traças.
  • Depara-se com os cantos roídos de um livro. Qualquer página lhe vem à mente. O papel tingido dos tempos. Uma coisa leva à outra. O papel é qualquer coisa menos natural. Menos natural do que a palavra. Esse veneno da humanidade.


28 março, 2013

Redecorando



não
não tá tudo bem

eu deixo a casa vazia

você insiste em aparecer

as perguntas que faço

o silêncio teima responder



Nas delícias da lembrança



você beirando a soleira
e
equilibrando-se no parapeito do janelão
você é de uma fotografia antiga pendurada
ainda te seguro em pensamento
pra não cair


25 março, 2013

Luzes da cidade




Tem coisas que te fazem levantar pela manhã
vontade de um beijo
ou de morte

paisagens remotas
coloridas transações de tela
tem mais coisas que não te deixam dormir à noite.



17 março, 2013

Hypomnemata




O professor Passetti sugere aos alunos que sempre carreguem um caderninho. Ele sugere: hypomnemata, caderninho, isso aqui, em grego é hypomne-mata. Moleskine, capa dura, elástico preto, bordas arredondadas. Hoje em dia é computador, ipad, tablet e por aí vai. É bom para anotar essas coisas. Hypomnemata vem dos gregos, da democracia. Diz assim, registra e passa adiante. Outras pessoas que possam se interessar, possam pôr adiante. Não é pra você. E no meu só há uma frase:

"

O que nos mantém presos?

"


Adiante...

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Enchem seu jornal com as mais terríveis tragédias
Os projetos de lei que irão te foder em buracos que jamais imaginou
Seu carro vive quebrando, pouca gente sorriu esta manhã para você
Um dia atrás você não conseguia nem dormir
Hoje é seu aniversário e lembraram até de comprar um bolo
Perguntam-lhe Happy Hour ou festinha no findê
Recebe e-mails sobre aumento de pênis e tonificante capilar
Não sabe o que é ter um chefe chato, você é profissional autônomo

Três dias atrás mandou um e-mail dizendo que estava tudo bem.


Setembro ou qualquer que seja





sento-me entre as palavras
mas a violência não me deixa escolher

(todos estão esperando
todos estão perguntando)

talvez eu me apegue nas coisas fúteis
pra não encarar minha existência efêmera
e esse monte de ideias
é o que me mantém com os pés para cima


24 janeiro, 2013

Viagem pelo Ar





um velho amigo veio cantar
disse que veio do mar
disse que ainda veio de lá

o estranho não era o canto
mas o chão que tinha no andar
um resto de mato, um rastro de planta

um velho ao fundo, papagaio no ombro
os olhos miúdos, sorriso sereno
tinha voz de inhambu, risada de sabiá

fiquei quieto com o peito tremendo
em desconforto, uma agonia
uma floresta me vinha brotar

e ali mesmo desciam lágrimas
um rio brotando aos poucos
as gotas, o orvalho, o sereno, o riacho todo

uma noite veio, outras passaram rasantes
por enquanto não me mexo
espero os galhos esparramarem pela casa
o som dos morcegos ajuda dormir