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22 agosto, 2013

Prefácio para um Curriculum Vitae


Tenho vinte e três anos e estou no quinto e último ano de Psicologia. A todo momento me perguntam “E aí? Já sabe o que vai fazer?”, isso nos melhores dias. Há dias em que tento me esquivar dos antiquíssimos “Vai atender criança ou adulto?”. Outros dias me arrependo de confessar minha condição de estudante. “Mas vai abrir consultório ou vai para empresa?”, e desvio como um pugilista, devolvendo “Hoje em dia há uma porção de lugares para um psicólogo, nas escolas, na consultoria, na saúde pública, em projetos sociais etc.”. Mas compreendo que é só uma maneira de se puxar assunto, assim como se pergunta a um adolescente sobre namoros, a escola. Nem a gente que estuda cinco anos sabe bem o que é que vai fazer um psicólogo solto no mercado de trabalho.
        Mas junto destas respostas, temo ter que confessar o inevitável. Não tenho jeito para psicólogo. E quando digo isso podem bem me dizer que sou ótimo para ouvir os outros, que sou atencioso, que não tiro conclusões precipitadas. Que tenho quase as qualidades de um barman importado direto dos filmes ou de um taxista das metrópoles — depósito imaginário das histórias mais absurdas e usuais da humanidade. Outra característica comum entre estas pessoas com quem tenho me encontrado nos últimos cinco anos é deduzir que um estudante de psicologia tem paixão (e talvez a necessidade) de escutar meticulosamente a vida alheia, estando disponível principalmente em longas viagens de ônibus para terapias intermináveis, tanto do passageiro ao lado quanto de seus familiares que nem se encontram no ônibus. Tenho uma prima que é meio psicossomática, sabe? O problema dela é que ...
           Mas o que então eu quero fazer depois de formado? E esta é uma pergunta que eu me faço desde muito antes de assinalar Psicologia na lista do vestibular. É uma pergunta maldita para alguns. O que é que eu vou fazer da vida? Eu gostaria até de poder responde-la definitivamente. Mas nem quase eu consigo. Então eu volto para a infância, perto das memórias guardadas, bem perto da primeira briga, da primeira vez que me mijei na escola. Lá eu vejo um menino de uns oito anos virando para os pais e perguntando se existe criança escritora. E um tempo depois um menino que começa a escrever crônicas, emitir opiniões sobre o que é ser criança e outras coisas. Às vezes ele diz para os outros que quer ser escritor. As imagens deste menino são bruscamente arrancadas dos meus olhos, como se me arrancassem da mão uma fotografia, e nos dedos seguro as bordas do papel rasgado.
            Durante minha graduação em Psicologia tentei escrever dois livros de contos, que de tantas revisões, enxertos, acabaram por se perder, restando alguns contos de valor sentimental e quase nenhum valor literário. Um romance escrito durante um feriado, que serviu de experiência para lidar com a solidão. Dois blogs de poesia, agrupados em um documento de Word, que seguem o curso tímido e intimo da poesia, e uma série de textos inacabados, confissões em um diário no Bloco de Notas, vários cadernos espalhados pela casa com ideias para livros e contos que nunca vou continuar.
       Tentei abraçar a produção literária, criando um jornal literário artístico junto com dois amigos, uma experiência incrível do que é trabalhar em equipe, sem apoio de ninguém, lidando com estruturas e burocracias do serviço público. O jornal rodou pelo Campus, viajou em alguns estados e agora repousa em sua aposentadoria precoce.
          Estive durante a graduação, tão preocupado em escrever para virar escritor e acho que deixei de lado a formação para a qual eu me inscrevi. E não me arrependo. Acho inclusive que aprendi mais de Psicologia às margens da faculdade do que na sala de aula. Acho que aprendi mais sobre a vida, sobre como conduzir minhas ações levando em conta seus desdobramentos na vida dos outros, fazendo e perdendo amigos do que aprenderia nas aulas de Ética. Aprendi mais sobre como intervir numa crise de ansiedade, durante as madrugadas de república do que num manual de psicopatologias. Tive que me recompor ao perceber que os valores que eu carregava em mim eram pedaços de discursos que estavam entranhados em mim, feito cacos de vidro depois de um acidente de carro. E isto nenhuma aula de Processos de Subjetivação ou Psicanálise poderia ter feito.
       Através de uma formação em psicologia, muito vivi e experimentei. O que não pude experimentar, inventei. A psicologia é como um rio caudaloso e agitado que te joga para as margens, te engole e depois cospe adiante, às vezes seca em um lugar, e logo alarga e faz circular outras coisas, que como todas as coisas fluidas, são passageiras. Só a viagem permanece. E se a psicologia me jogar para um caminho, tudo bem. Se eu resolver descer e ir a pé por outro, pode ser também. O que eu quero fazer da vida? Vou experimentar o que ela me der, e se não for o bastante, vou inventando junto.



4 comentários:

Luísa disse...

Esse texto me apareceu no feed de notícias no momento exato, aqui e agora me inundou, impactou e acalmou, tudo junto. Se isso não é ser escritor dos bons, então não sei o que é. Valeu, menino!!

Unknown disse...

Não sei o que é pior: "o que você faz da vida?" ou "o que vai fazer da vida?". De repente tudo vira bem de consumo com obsolescência programada. O tempo, o corpo e seus motivos/ motores.
Ser artista é reinventar o tempo, o corpo, a vida. É ter 8 anos quando quiser e não se (v/r)ender.
Gostaria de sentir essa força que encontra em saber que a vida a si se basta, mas de repente, entre dois ou vários mundos, meu corpo não se encontra, não ouve, não dança.

Unknown disse...

Me acertou em cheio!!!

Guilherme Providello disse...

a vida é meios, caminhos: nunca objetivos, fins. Compartilho da tua opinião: buscar algo é bem melhor que tê-lo.