Tenho vinte e três anos e estou no quinto
e último ano de Psicologia. A todo momento me perguntam “E aí? Já sabe o que vai fazer?”, isso nos melhores dias. Há dias em
que tento me esquivar dos antiquíssimos “Vai
atender criança ou adulto?”. Outros dias me arrependo de confessar minha
condição de estudante. “Mas vai abrir consultório
ou vai para empresa?”, e desvio como um pugilista, devolvendo “Hoje em dia há uma porção de lugares para um
psicólogo, nas escolas, na consultoria, na saúde pública, em projetos sociais
etc.”. Mas compreendo que é só uma maneira de se puxar assunto, assim como
se pergunta a um adolescente sobre namoros, a escola. Nem a gente que estuda
cinco anos sabe bem o que é que vai fazer um psicólogo solto no mercado de
trabalho.
Mas junto destas respostas, temo ter
que confessar o inevitável. Não tenho jeito para psicólogo. E quando digo isso
podem bem me dizer que sou ótimo para ouvir os outros, que sou atencioso, que não
tiro conclusões precipitadas. Que tenho quase as qualidades de um barman importado direto dos filmes ou de
um taxista das metrópoles — depósito imaginário das histórias mais absurdas e
usuais da humanidade. Outra característica comum entre estas pessoas com quem
tenho me encontrado nos últimos cinco anos é deduzir que um estudante de
psicologia tem paixão (e talvez a necessidade) de escutar meticulosamente a
vida alheia, estando disponível principalmente em longas viagens de ônibus para
terapias intermináveis, tanto do passageiro ao lado quanto de seus familiares
que nem se encontram no ônibus. Tenho uma
prima que é meio psicossomática, sabe? O problema dela é que ...
Mas o que então eu quero fazer
depois de formado? E esta é uma pergunta que eu me faço desde muito antes de
assinalar Psicologia na lista do vestibular. É uma pergunta maldita para alguns.
O que é que eu vou fazer da vida? Eu
gostaria até de poder responde-la definitivamente. Mas nem quase eu consigo. Então eu volto para a infância, perto das
memórias guardadas, bem perto da primeira briga, da primeira vez que me mijei
na escola. Lá eu vejo um menino de uns oito anos virando para os pais e
perguntando se existe criança escritora. E um tempo depois um menino que começa
a escrever crônicas, emitir opiniões sobre o que é ser criança e outras coisas.
Às vezes ele diz para os outros que quer ser escritor. As imagens deste menino
são bruscamente arrancadas dos meus olhos, como se me arrancassem da mão uma
fotografia, e nos dedos seguro as bordas do papel rasgado.
Durante minha graduação em Psicologia
tentei escrever dois livros de contos, que de tantas revisões, enxertos,
acabaram por se perder, restando alguns contos de valor sentimental e quase
nenhum valor literário. Um romance escrito durante um feriado, que serviu de experiência
para lidar com a solidão. Dois blogs de poesia, agrupados em um documento de
Word, que seguem o curso tímido e intimo da poesia, e uma série de textos
inacabados, confissões em um diário no Bloco de Notas, vários cadernos espalhados
pela casa com ideias para livros e contos que nunca vou continuar.
Tentei abraçar a produção literária,
criando um jornal literário artístico junto com dois amigos, uma experiência incrível
do que é trabalhar em equipe, sem apoio de ninguém, lidando com estruturas e
burocracias do serviço público. O jornal rodou pelo Campus, viajou em alguns
estados e agora repousa em sua aposentadoria precoce.
Estive durante a graduação, tão
preocupado em escrever para virar escritor e acho que deixei de lado a formação
para a qual eu me inscrevi. E não me arrependo. Acho inclusive que aprendi mais
de Psicologia às margens da faculdade do que na sala de aula. Acho que aprendi
mais sobre a vida, sobre como conduzir minhas ações levando em conta seus
desdobramentos na vida dos outros, fazendo e perdendo amigos do que aprenderia
nas aulas de Ética. Aprendi mais sobre como intervir numa crise de ansiedade, durante
as madrugadas de república do que num manual de psicopatologias. Tive que me
recompor ao perceber que os valores que eu carregava em mim eram pedaços de
discursos que estavam entranhados em mim, feito cacos de vidro depois de um
acidente de carro. E isto nenhuma aula de Processos de Subjetivação ou
Psicanálise poderia ter feito.
Através
de uma formação em psicologia, muito vivi e experimentei. O que não pude
experimentar, inventei. A psicologia é como um rio caudaloso e agitado que te
joga para as margens, te engole e depois cospe adiante, às vezes seca em um
lugar, e logo alarga e faz circular outras coisas, que como todas as coisas fluidas,
são passageiras. Só a viagem permanece. E se a psicologia me jogar para um
caminho, tudo bem. Se eu resolver descer e ir a pé por outro, pode ser também. O que eu quero fazer da vida? Vou
experimentar o que ela me der, e se não for o bastante, vou inventando junto.
