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cartógrafo de letras, sensações e pássaros

19 setembro, 2011

Segunda-feira e as desilusões

Coisas de segunda feira, revirar blogs, vontade de destruir a internet, cortar o cabelo e tentar mergulhar em livros. Coisas de segunda feira não cabem em diários. Mas um comentário em um site antigo me deixa amargurado. "Você só escreve sobre desilusão?". Não, claro que não. Escrevo sobre angústias, desencontros, meninos de rua e às vezes um forrózinho chocho. Às vezes escrevo sobre linhas, outras fora da página. Prefiro escrever para mim, mas acabo sempre escrevendo para os outros. Minha mãe me disse que eu ia ser um bom escritor. Alguns leitores pensam, mas não dizem o contrário, eu acredito. Troco de pele em toda troca de estações. Sou daltônico parcial e o quê mais? Queria ser bombeiro. Mas como dizia a moça lá da internet, se eu só escrevo sobre desilusão, acho que sim, escrevo sobre a morta segunda feira, sobre a vontade de que fosse sexta, ou qualquer dia melhor. Para não cair na armadilha literária, vou dizer que tudo o que acabei de escrever era sobre você.

11 fevereiro, 2011

128 x 1

Sigam-me, sigam-me, sigam-me
Um dia sua ignorância valerá prêmios e milhas

À vista com dez por cento de desconto

Minha querida amiga

Eu tenho tanta coisa para falar, para pensar e para elaborar, que acabo me sentindo culpado. É que a noite é a pior companhia, mas é minha favorita.

07 setembro, 2010

Falta

— Abre essa porta Magda, abre agora!
— Você tá me assustando Mauro. De verdade.
— Eu sei Magda, mas não sei mais o que fazer. Preciso falar com você. Abre a porta.
— Eu vou abrir, mas você tem que me prometer que não vai fazer nenhuma besteira.
— Eu só posso te prometer que não volto mais.
(Abre a porta)
— Às vezes você me assusta.
— Às vezes nem eu me reconheço, às vezes eu não sei mais o que eu estou fazendo aqui.
— Você não vai embora. Eu sei que não. Você é um mentiroso, sabia?
— Não é mentira, eu vou. Não volto mais. Digo, não volto mais para cá. Mas a gente ainda pode se cruzar.
— Você vai me falar para onde está indo? Vai me ligar? Vai me mandar cartas e postais por onde passar? Não vai. Você é assim mesmo, não é Mauro? Nunca vai conhecer o amor.
— O amor, Magda. É tudo tão, tão pouco palpável e pouco descritivo, não é?
— Não Mauro. O amor é tudo o que foge às descrições, porque tudo o que sabe sobre o mundo, você sabe e simplesmente entende. O amor foge de tudo isso, porque o amor anda no caminho contrário da nossa vida. É o amor que nos atrapalha. O amor é quem nos faz falhar.
— O amor não é feito de partículas. O amor não é uma coisa, é? O amor deve ser uma coisa tão menor que as outras e viaja perdido, mas quando encontra um corpo mais frio se transforma nessa monstruosidade que eu sou.
— Não, isso não. O amor é essa música que nós dois imaginamos agora, enquanto você me fala isso e enquanto eu penso no que eu poderia estar fazendo agora, mas não estou, poderia fugir, mas não vou, estou aqui, entende?
— Mas e quando as cosias se complicam e a única saída é se livrar de tudo? Magda, eu não sei mais o que é isso que você e eu chamamos de amor, eu não sinto mais nada. Eu só quero acabar com tudo e mesmo assim nada parece importar.
— Você não pode levar a vida tão a sério, Mauro, algumas coisas simplesmente passam e outras ficam. Eu sou uma árvore e você é uma folha.
— Eu não vou me desculpar, Magda. Nunca.
— Eu entendo, Mauro. Então os nossos caminhos vão se desatar e eu vou voltar a ser quem eu era e você vai ser quem você quer ser.
— E por que eu tenho que ser alguma coisa?
— Porque você nunca soube o que é se importar com alguém, a não ser quando estava aqui comigo. Mas isso já passou. E você agora volta a ser essa coisa que perambula e machuca tudo o que toca. Eu te amo, Mauro, mesmo que isso não signifique nada para você.
— Você vai voltar a tocar violino? Vai voltar para a escola? Vai voltar a deixar os cabelos crescerem? Vai pensar em mim?
— Eu vou fazer o que eu quiser e do jeito que eu quiser, do jeito que me der vontade Mauro. Eu quero que você vá embora agora.
— Eu não vou me despedir.
— Eu não vou voltar para a escola, nem para violino. Vou tingir os cabelos e não vou pensar em você porque você já foi embora assim que te conheci, você já é outra coisa, então eu não vou me despedir, só vou continuar te amando de um jeito que nem eu sei mais como é, porque eu já não sou mais eu e isso nem é mais a minha vida.

Piveteria

A pipa deu volta errada, ciscou no lustre e o cerol cortou tudo quanto era fio solto. Se reclamar, dá bicho, mas parece surdo o cagüeta. O pai do outro, tem espingarda calibre doze e ele, aos dez, se tem medo, encolhe e desafia. Escolhe o pé esquerdo e o tiro sai torto, acertando o filho, que era arteiro e ninguem contava. Aproveita o susto e se esparrama pra lá da calçada. Quando ninguém olha ele some, e quando faz silencio, o gatilho dispara pra cima. Se esconde de novo e só sai quando anoitece. Fechou o cerco e a sorte é certa, ou sossega ou se espreme entre os espinhos. Daí a boca seca cede à vontade de se ver solto, então salta desastrado e se estrepa no alumínio. A velha história: pulso quebrado, joelho amassado, carro empinado, guardinha alarmado e porrete no olho. Pé descalço, dinheiro de jogo, pistola de água e camisinha amassada. Algema de aço, banco de couro e no bolso de dentro ninguém sabe, um tesouro. Fim do jogo é folia, pneu assovia, vizinhança arrepia, menino de barro e varanda vazia. A luz roda, gira, muda, mil e um arcoiris, o som vai, cai, sai e insuportável é o choro. No fim da algazarra, criança tem asa e mulher é bicho pior que touro. Pivete é bandido, de pistola é patrão, mas quando vira a esquina toma tapa, é o camburão.
— Caiu, a casa caiu!

E o menino Joaquim, praiano, de menos de dez, olho roxo, joelho ralado, celular roubado, cumpre pena de dois anos.